Você
sabe desfazer um nó? Não estou dizendo fazer um nó, isto tem milhares de
técnicas, falo mesmo é desmanchar um emaranhado. Sou especialista nisso.
Quando
eu tinha uns 10 ou 11, minha mãe entrou na moda de fazer toalhinhas de mesas de
nylon. Pareciam àquelas agulhas de pescador fazer rede, só que um pouco
menores. Ela passava horas do dia fazendo nozinhos e eventualmente ela tinha
que desmanchar algo, ou os “novelos” embaraçavam, aí o filhote aqui entrava em
ação. Vou explicar sucintamente porque
não quero perder o meu posto de desembaraçador
mor.
Primeiro
o tato tem que estar aguçado. A saber, as pontas dos dedos fazem o trabalho
mais delicado e sensível e nas proximidades da palma, faz-se a força. Então
quando você tiver nas mãos um emaranhado de coisas, comece a puxar no centro
das mãos, com as pontas dos dedos pressionando contra as palmas, como se fosse
espalhar os fios e sempre que sentir resistência, passe o trecho para a ponta
dos dedos que trabalhará nos nós menores. Nunca puxe pelas pontas soltas, isso
só apertará os nós, tornando-os praticamente insolúveis. Vá do todo para as partes,
primeiro diminua a resistência. Quando trabalhar em um nó em específico,
procure afrouxá-lo, como se tirasse a pressão. Faça isso em uma quantidade
grande do emaranhado. Em seguida escolha uma ponta e faça-a retornar para o
útero de seu nó primeiro. Como num ovo cósmico às avessas, faça cada ponta
retornar. Isso aos poucos causará um efeito reverso e o que estava muito junto
começa a se afastar. Retire parte a parte, deixe seu cérebro cuidar das duas
mãos ao mesmo tempo, dos dez dedos ao mesmo tempo, dos braços ao mesmo tempo.
Não raciocine mais, como num transe, afrouxe empurre e puxe, na sequência que
seus dedos lhe mostrarem ser o movimento de mais leveza. Num momento crucial,
os nós poderão se revoltar e tentar se agarrarem e tornarem a formar o
emaranhado. Este é um sinal, você está perto do fim. Suas mãos, seus dedos,
seus olhos começaram a dar sinais de cansaço, é o sinal de que o fim está
próximo, o dos emaranhados ou da sua paciência. Confesso que umas poucas vezes
na vida desisti de desfazer um grande emaranhado, mas foram em números
insignificantes de vezes. Quando todos desistiam, eu continuava até ter os fios,
todos livres, sem opressão, podendo então, os mesmos, nas mãos de um artesão
hábil transformarem-se em uma obra de arte, livre e promissora.
Olhar
pra trás e ver tudo que passou de forma imparcial e limpa, sem ressentimentos
ou mágoas é pra poucos. (Estou escrevendo sobre imparcialidade e pela primeira
vez escrevendo dois textos de forma simultânea). Quando você está no meio do
calor de acontecimentos, seja quais forem, estou sendo genérico, a atenção aos
detalhes que mais te marcam, pelos seus mapas e traumas, te toma o maior
esforço. Você vê um emaranhado, como uma série de acontecimentos independentes
e todos convergindo para sua desgraça. E quer saber? Em muitos casos, são só
acontecimentos que existiriam com ou sem seu consentimento, muitas das coisas
nos vem só porque viriam pra qualquer pessoa que estivesse lá. Nem sempre são
nossos atos ou sentimentos que geram consequências. Só fica tudo suave e leve,
quando você mescla a força com a sutileza, quando você pega um emaranhado de
nós que não foi você que criou e desfaz um a um, suavizando, não puxando as
pontas soltas de qualquer jeito. Você tem que fazer com que os dedos em conjunto
com toda a sua mão, trabalhem, ou seja, seus sentimentos e razão, seu
raciocínio e desejo, e num determinado momento, a sua intuição, fechando os
olhos e sentindo a reação, sentindo onde está tenso ou onde afrouxou. Mais
lições dão pra tirar de como desatar nós, mas como sempre, o melhor é descobrir
sozinho, olhando pra dentro.
Considerei-me
responsável e usei meus traumas e mapas de reações muito tempo e só depois de
estar bem longe de tudo, que consegui ver que algumas coisas simplesmente não
iriam mudar, mesmo que eu soubesse o que sei hoje, mas outras sim.
Imaginar
que eu sabia desatar nós desde pequenininho e não sabia o que isto significava!
Pequenas
coisas, grandes conquistas!
“Quero a
sua mão no meu cabelo
Que é pra desembaraçar meu pensamento”