terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Perdas



Foram dois anos e pouco de luta contra um câncer (carcinoma no cárdio) terminando em 23 de Julho de 2006. Meu Pai de saudável, cheio de força e ativo como nunca, passou a lutar um combate do qual não sairia vitorioso. Meu maior balaústre, minha coluna de sustentação. Lutei como se fosse a minha carne que se esvairia. Diagnosticado o carcinoma de grau 4, começou a via sacra à médicos e descobrimos que todos opinaram por operar. A primeira cirurgia pegou meu Pai forte e as oito horas para a retirada do estômago e uma parte do esôfago foram suportadas.  O próximo ano foi de adaptação e até comemoramos num restaurante alemão, comendo eisbein com muito chopp, por minha conta é claro, mas não tinha acabado.
Na revisão de um ano, outro tumor foi encontrado nas fronteiras da operação. Uma nova cirurgia, essa já com um risco e uma esperança completamente diferentes. Um resultado trágico, uma semana em coma e meu Pai voltou outra pessoa, fraca, esgotada. Uma estricção formada na emenda do trecho de intestino com o que restou da traqueia impedia a ingestão de alimentos. Vivi os momentos mais tensos com as tentativas de desobstrução através de cautérios que queimavam e abriam desta forma a passagem para os alimentos, mas com o tempo, esta intervenção se tornou semanal. Eu literalmente conheci meu pai por dentro. Trabalhei de assistente médico, ajudando na localização do melhor caminho a percorrer na desobstrução, fui enfermeiro limpando o sangue que se esvairia pelo chão do ambulatório, fui guia de um Homem sem forças durante seções de quimioterapia e radioterapia, decidi por intervenções ao meio de uma equipe de residência do Hospital das Clinicas, num momento onde um assistente tratou meu Pai como cadáver vivo.

No velório eu estava inconsolável, sentindo uma derrota sem tamanho e só uma das inúmeras tentativas de consolo trouxe um alento, quando um sábio de tão simples amigo me disse:
-vocês não perderam, tinha que acontecer, seu Pai me disse que ele só fez a primeira cirurgia, pois viu sua luta e disposição, por ele a vida tinha acabado ali, foi você que o manteve vivo, não se culpe! (Obrigado André).


Esta realidade esclarecida me deu forças pra continuar meu caminho, que só tomaria rumo mesmo alguns anos depois





(Bread  - everything I own 1972)

Você me protegeu das coisas ruins,
Me manteve aquecido, me manteve aquecido.
Você entregou minha vida para mim,
Me libertou, me libertou.
Os melhores anos que eu conheci,
Foram todos os anos que tive com você.


Um comentário:

  1. Infelizmente eu sei bem o que é tudo isso!! fui médica, enfermeira, pés e mãos da minha mae por 2 anos, a luta acabou a 3 meses.......

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