terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Ganhos


14 de Fevereiro de 2009, as 5:01 h da manhã, numa cesariana simples, chegou o Murilo.

Simples?

Foram onze (11) anos de espera, numa endometriose estranha; duas (2) videolaparoscopias, quatro (4) inseminações assistidas; sete (7) inseminações in vitru; três (3) perdas antes dos três (3) meses de gestação; trezentas (300) injeções; mil e seiscentas (1600) cápsulas de comprimidos variados; onze (11) anestesias gerais e uma (1) raquidiana, simples assim!

A chegada do Murilo trouxe um ensinamento, o de não desistir. Lembro-me daquele dia chuvoso, voltando de São Paulo, tinha sido a terceira consulta, três semanas esperando a confirmação de que estaríamos de alta e teríamos a gestação tão sonhada, mas que nada. O coração parara, era a terceira gestação perdida, a chuva do lado de fora do carro era torrencial, mas não se comparava a chuva do lado de dentro de nós. A única conversa que tínhamos era de que não tentaríamos de novo, a dor era insuportável, teríamos que esperar que o organismo expulsasse o material genético, uma curetagem nos tiraria o resto de esperança.

Voltei ao trabalho e desolado contei para algumas pessoas que haviam compartilhado os momentos de expectativa. Disse na minha dor, “desisto”.

Dois dias depois, minha cabeça não parava de querer achar a solução e comecei a digitar no Google: Infertilidade..não, aborto..não, aborto repetido..não, aborto recorrente, Isso! A pesquisa começou a trazer milhares de depoimentos e histórias, muitas perdas, muitas causas, mas no meio das páginas veio um depoimento de uma moça de Salvador. Fotos de uma criança linda, milhares de agradecimento e neles, junto com os dizeres estava: - “apesar de tantas injeções”, obrigado Dr. Barini!

Barini...Autoimunidade, Aloimunidade, nossa! Exatamente os sintomas, as mesmas coisas, acho que...Claro que achei!

Nossos médicos disseram que era só uma teoria, que os dados usados pra relatar 75% de sucesso eram sem cunho científico, mas quem é o roto pra falar do rasgado. A dor valia todos os investimentos, marcamos consultas, detectamos a inexistência do tal do anti-anticorpo, fizemos a vacina e o resultado foi este, liberados pra nossa sétima inseminação FIV.

Tivemos sucesso. Primeiro beta HCG deu 61, dois dias depois 109, primeiro ultrassom e embrião com 2 mm, uma semana depois 7,6 mm. O batimento cardíaco normal. Trinta e oito dias depois da transferência tivemos alta e a gravidez seria normal. Simples, rápido e indolor.

Com três meses de gravidez, novamente sangramento, corremos para o pronto socorro, desta vez, já nos preparando para o pior, mas dentro da Cris tinha um feto, com o coração batendo 167 vezes por minuto e aparentemente perfeito.

Todos os ultrassons, todos os beta HCG´s estão tabulados, me tornei especialista na vida como tinha ficado da morte.





(Bread -  if  1971)
E se o mundo fosse parar de girar girando lentamente até morrer
Eu ficaria no final com você
E quando o mundo acabar
Aí uma por uma, as estrelas apagariam
E nós simplesmente voaríamos para longe.


2 comentários:

  1. Duas histórias que me emocionam muito... perder ou ganhar... o importante é a luta, o aprendizado que traz, as experiências que só a vivência é capaz de proporcionar...
    Ao seu lado foi possível lutar. Seu pai e eu... só continuamos por você, pois você não desistiu e buscou todas as alternativas possíveis pela vida... e conseguiu achá-las... "Faz um tempo eu quis / Fazer uma canção / Pra você viver mais" (Pato Fu). Ele viveu mais... e a vida brotou de nós dois também... um milagre, que só aconteceu por sua determinação e minha resistência... só Deus e nós, sabemos as mudanças internas ocasionadas por tais fatos. Valeu muito a pena. Lutaria novamente. Assim como seu pai, tenho certeza, que também lutaria. Obrigada meu amor.

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  2. Luis, acho que depois que nos tornamos pais vemos como somos importantes. Pensa...é uma pessoinha totalmente indefesa que precisa muito de você, aliás, ela só sobrevive se você estiver do lado dela cuidando, educando e tentando transmitir o Maximo de informação para que ela sobreviva neste mundo maluco!
    Confesso que li essa história e chorei, mas chorei muito...tocou meu coração, pois sei que não existe amor maior do que dos pais para o filho. É um amor tão grande que chega até doer, não é?
    Essa batalha e essa força de vontade (que nós que estamos lendo não temos noção do que foi para vocês) é uma lição de vida mesmo. É a prova mais bonita de amor que pode existir.
    Ame, mas ame muito, porque quando piscar os olhos ele não será mais um bebe e com certeza todo esse amor que você dá a ele será recíproco.
    A vinda de um filho realmente é um ganho imenso!!!
    Abraços,
    Paula

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