quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Lua


Recordações vamos sempre ter, mas lições, só se quisermos de verdade.

Estive em contato com uma natureza grandiosa nesta última semana e fui buscar lá atrás um sentimento que nunca esqueci e agora passo pra vocês.

Tinha eu por volta de cinco anos e estava passeando de carro com meu Pai, um Mercedes 51 preto, o verdadeiro calhambeque, íamos como sempre em silencio, por uma noite clara, mas não muito quente, me recordo de sentir o frio pelos ossos, e Ele de súbito encostou o carro.

Não consigo precisar o local, mas vou tentar, porque alguém pode até reconhecê-lo. Devia ser em algum lugar voltando de são Mateus, lembro de ter ido pela avenida industrial, Sapopemba, mas era na volta, já retornando por estes caminhos que ele parou. Era logo após uma curva a esquerda, no alto, tinha uma grande pedra. Meu pai desceu e começou a olhar em direção ao céu, eu desci também e o imitei, como sempre. Vi uma lua enorme, agora sei que era lua cheia, o céu estava estrelado, cintilante poderia eu dizer, mas a lua, a lua estava linda. Foi a primeira vez que eu via este astro com o tamanho que ele é. Ficamos alguns minutos ali e depois do mesmo modo que chegamos partimos.

Aquela noite iluminou minha alma, e assim como os poetas, me apaixonei pela lua, simbolicamente, algo que se pode admirar e nunca tocar, eu andava e olhava pra Lua e ela nunca ficava mais próxima, por mais que eu andasse em todas as direções.

Talvez por isso, aquele distintivo de xerife e o revolverzinho de plástico que vinham na maria-mole que eu perdi e não achei mais eram tão importantes pra mim,  meu mais querido brinquedo. Talvez, aquele carrinho de ferro, que minha tia Marlene, do tio Valter me deu, usado todo descascado, que eu pintava com esmalte e que um dia sumiu, atrás de algum móvel, ou esteja em algum buraco no quintal ainda, tenha sido meu melhor carrinho, talvez por isso que a tampinha do refrigerante Cuca, que desapareceu misteriosamente da minha coleção de tampinhas, era o maior artilheiro da história do meu campeonato de tampinhas (acho que ele se transferiu pra Itália sem me avisar).

Coisas a se alcançar! Se fosse só esse meu legado seria triste não é? Pois é, mas não foi, meu Pai me levou no pedalinho em Águas de Lindóia, fomos pescar na Billings. No terreno baldio da esquina, me ensinou que a Maria-pretinha era deliciosa, crescia no mato e era muito doce, inúmeras vezes voltei sozinho procurando no mato esta guloseima. Um dia foi comigo e com minha irmã num outro terreno baldio, lá no fim da Rua Pirapora nos mostrar aquela plantinha que fecha quando a gente encosta nela, e o que dizer de me ensinar a identificar morangos silvestres.

Tudo tão simples e tão palpável. A vida é assim, este emaranhado de sentimentos, que uma hora são inatingíveis e na maioria dos momentos estão ali, ao alcance da mão.

Posso confessar, sempre esperei o momento de repetir esta parada pra olhar a noite, com meu filho, muito tempo antes de ele nascer e espero muito poder fazer isso, acho que vou fazer só um pouquinho diferente, vou abraça-lo enquanto olho pra lua e apaixonado vou derramar lágrimas, como estou fazendo agora, porque a vida é assim, deliciosamente imprevisível e apaixonante. Tão perto e tão distante!



3 comentários:

  1. Simples e fantástico. Gostei mesmo. Obrigado pelas palavras que abrem caminhos. E sempre escolhendo a musica perfeita pra fechar o final. Não tem como não se emocionar! VALEU!!!!

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  2. O comentaria foi no texto errado, agora vou mandar no certo.
    as lembranças!!!!!
    lembro das plantas carnivoras e maria pretinha que até tenho plantada em casa, e aquela pescaria lembra o barco estava tão cheio que eu que era bem pequena conseguia colocar a mão na agua.Que loucura hoje sendo mãe nem acredito no risco que nós corriamos mas era uma aventura e tanto!coloca mas das nossas lembranças que é muito legal! bjs

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  3. Eu me lembro do dia em que meu pai me disse que a água que jorra do chafariz era um peixinho que fazia todo o trabalho com a boca, me lembro do dia que eu cresci, logo descobri que era mentira e disse para meu pai “Pai não devia ter me contado aquilo, criança e inocente e acredita, não faça mais isto, que coisa feia contar mentiras”. Bom eu cresci mais, descobri que meu pai estava certo, que este é o valor de ser criança e que eu faria o mesmo.

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