Recordações vamos sempre ter, mas lições, só se quisermos de verdade.
Estive em contato com uma natureza grandiosa nesta última semana e fui
buscar lá atrás um sentimento que nunca esqueci e agora passo pra vocês.
Tinha eu por volta de cinco anos e estava passeando de carro com meu
Pai, um Mercedes 51 preto, o verdadeiro calhambeque, íamos como sempre em
silencio, por uma noite clara, mas não muito quente, me recordo de sentir o frio
pelos ossos, e Ele de súbito encostou o carro.
Não consigo precisar o local, mas vou tentar, porque alguém pode até
reconhecê-lo. Devia ser em algum lugar voltando de são Mateus, lembro de ter
ido pela avenida industrial, Sapopemba, mas era na volta, já retornando por
estes caminhos que ele parou. Era logo após uma curva a esquerda, no alto,
tinha uma grande pedra. Meu pai desceu e começou a olhar em direção ao céu, eu
desci também e o imitei, como sempre. Vi uma lua enorme, agora sei que era lua
cheia, o céu estava estrelado, cintilante poderia eu dizer, mas a lua, a lua
estava linda. Foi a primeira vez que eu via este astro com o tamanho que ele é.
Ficamos alguns minutos ali e depois do mesmo modo que chegamos partimos.
Aquela noite iluminou minha alma, e assim como os poetas, me apaixonei
pela lua, simbolicamente, algo que se pode admirar e nunca tocar, eu andava e
olhava pra Lua e ela nunca ficava mais próxima, por mais que eu andasse em
todas as direções.
Talvez por isso, aquele distintivo de xerife e o revolverzinho de
plástico que vinham na maria-mole que eu perdi e não achei mais eram tão
importantes pra mim, meu mais querido
brinquedo. Talvez, aquele carrinho de ferro, que minha tia Marlene, do tio
Valter me deu, usado todo descascado, que eu pintava com esmalte e que um dia sumiu,
atrás de algum móvel, ou esteja em algum buraco no quintal ainda, tenha sido
meu melhor carrinho, talvez por isso que a tampinha do refrigerante Cuca, que
desapareceu misteriosamente da minha coleção de tampinhas, era o maior
artilheiro da história do meu campeonato de tampinhas (acho que ele se
transferiu pra Itália sem me avisar).
Coisas a se alcançar! Se fosse só esse meu legado seria triste não é?
Pois é, mas não foi, meu Pai me levou no pedalinho em Águas de Lindóia, fomos
pescar na Billings. No terreno baldio da esquina, me ensinou que a
Maria-pretinha era deliciosa, crescia no mato e era muito doce, inúmeras vezes
voltei sozinho procurando no mato esta guloseima. Um dia foi comigo e com minha
irmã num outro terreno baldio, lá no fim da Rua Pirapora nos mostrar aquela
plantinha que fecha quando a gente encosta nela, e o que dizer de me ensinar a
identificar morangos silvestres.
Tudo tão simples e tão palpável. A vida é assim, este emaranhado de
sentimentos, que uma hora são inatingíveis e na maioria dos momentos estão ali,
ao alcance da mão.
Posso confessar, sempre esperei o momento de repetir esta parada pra
olhar a noite, com meu filho, muito tempo antes de ele nascer e espero muito
poder fazer isso, acho que vou fazer só um pouquinho diferente, vou abraça-lo
enquanto olho pra lua e apaixonado vou derramar lágrimas, como estou fazendo
agora, porque a vida é assim, deliciosamente imprevisível e apaixonante. Tão
perto e tão distante!

Simples e fantástico. Gostei mesmo. Obrigado pelas palavras que abrem caminhos. E sempre escolhendo a musica perfeita pra fechar o final. Não tem como não se emocionar! VALEU!!!!
ResponderExcluirO comentaria foi no texto errado, agora vou mandar no certo.
ResponderExcluiras lembranças!!!!!
lembro das plantas carnivoras e maria pretinha que até tenho plantada em casa, e aquela pescaria lembra o barco estava tão cheio que eu que era bem pequena conseguia colocar a mão na agua.Que loucura hoje sendo mãe nem acredito no risco que nós corriamos mas era uma aventura e tanto!coloca mas das nossas lembranças que é muito legal! bjs
Eu me lembro do dia em que meu pai me disse que a água que jorra do chafariz era um peixinho que fazia todo o trabalho com a boca, me lembro do dia que eu cresci, logo descobri que era mentira e disse para meu pai “Pai não devia ter me contado aquilo, criança e inocente e acredita, não faça mais isto, que coisa feia contar mentiras”. Bom eu cresci mais, descobri que meu pai estava certo, que este é o valor de ser criança e que eu faria o mesmo.
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