quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sou Deus e agora?




Estava na praia, neste começo de ano (2012), debaixo de uma tenda, com uma parte da família. Caipirinha na mão, muito sol. Escutei um barulho de motor berrando, no momento em que me virei pra olhar o Fiat 147, a Cris já falou:
-quer ver que vai atolar?
Não deu outra, o rapaz quis manobrar no final da rua e entrou na praia, foi virar e enterrar praticamente toda a roda dianteira na areia. Falei em tom de ironia:
– Tiro ele de lá ou espero pra ele sentir a burrada que fez?
Deixei-o lá, continuei a caipira e nuns minutos mais tarde a Cris pediu para eu buscar um guaraná pro Murilo, visto que o atendimento em praia não é cinco estrelas.
Levantei-me com uma dificuldade enorme e me dirigi à barraca, neste caminho observei os dois rapazes que estavam com o motorista do possante, tentarem calçar as rodas dianteiras com madeira e entulhos que achavam e ninguém, absolutamente ninguém em uma praia lotada foi ajudá-los.
Pedi para a moça que veio em minha direção quando entrei na barraca (ela iria leva-lo em seguida para a barraca) e me virei em seguida para passar pelo carro, no meu caminho de volta.
Encostei-me ao capo, do lado do passageiro e distribui em voz de comando:
-Não acelera e vamos procurar um lugar pra fazer força!
Os dois ajudantes repetiram a ordem pro motorista e tentaram achar um lugar para pegar no carro, nesta hora eu abracei a frente do carrinho, achando um lugar onde não amassasse e dando um pequeno urro, arranquei o dito cujo do buraco, fazendo uma força exatamente à 45 º do solo. Passei pro outro lado e segurando na coluna do lado do motorista falei com muita calma:
-Acelera bem de vagar que vou te colocar no caminho.
E uns dois metros pra frente o carro encontrou solo firme e deixei-os, sem olhar pra traz me fui em direção aos meus e ouvi um tríplice agradecimento sobre os quais dei um aceno de mão sem me virar, como se só tivesse passado por ali, não sendo nada usar todos os meus conhecimentos a respeito.

A vida é assim, se formos nos aventurar em local desconhecido, ou estamos muito bem acompanhados ou temos que torcer pela complacência divina, o que foi o caso da pequena história.

Pensando nisso, entrei em devaneios e muitas reflexões. Lembrei-me daquele livro que virou filme, “Nosso Lar” do Chico que não é o Buarque. E voltei a ter pensamentos elevados. Pra quem assistiu ou leu, entenderá melhor, para quem não, vou ser mais claro possível. A doutrina espírita reza que temos uma continuidade num plano superior, mas que está muito próximo fisicamente de nosso planeta, de onde podemos planejar nossas voltas e as situações as quais evoluiremos se passarmos como planejado. Na história, o personagem principal, André Luiz, vive estas descobertas e num certo momento é visitado pela sua mãe que está num plano mais elevado. Quando assiti ao filme, pela minha total falta de conformidade, já comecei a imaginar como seriam os planos superiores ao plano superior.

Sonhei uma vez, que estava voando, olhei pra cima e pensei se posso voar vou falar com Deus e fui. Comecei a subir, vertiginosamente, velozmente e cheguei.
 O Homem era parecido com o doutor do “de volta pro futuro”, e me recebeu rindo meio descrente e disse:
-Você é atrevido não é rapaz, mas você vai ter seu prêmio, vai voltar e realizar uma grande coisa!
Acabou aí o sonho.

Acredito, numa teoria que surgiu ou sempre esteve lá na minha cabeça ou nas nossas, que se somos imagem e semelhança do Criador, nosso caminho vai para uma escalada sem proporções, onde evoluiremos numa escala sem fim, até chegarmos a um ponto onde teremos acumulado uma quantidade tão grande de saber que seremos chamados para o lado do nosso criador e Ele dirá:
-Agora você já aprendeu até a teoria da unificação dos amores, você já é “Nós” e chegou a hora de criar seu próprio Universo

Nesse momento, me imagino abrindo espaço no meu interior e começando um Mundo (Leia Sutil), criando as regras físicas, todas as leis naturais, tudo de forma a não ter mais que pensar nos detalhes, criando criaturas que criavam, tudo partindo do meu corpo e o universo surgindo, com cada vez menos contato comigo, mas cada vez mais parecido comigo. Sim, só com os infinitos e inteligentes ajudantes e eu contemplando a tudo aquilo que dei origem, vendo tudo existir dentro do meu Ser e quando a criação estivesse num estágio avançado eu contemplaria meus semelhantes seres, todos os seres muito semelhantes entre si, semelhantes a força que os permitiu e isto me completaria.
Vendo o surgimento das eras, eu iria me lembrar do meu infinito caminho até aquele momento e tudo me pareceria bom.

E tudo me pareceria aprazível, mesmo vendo os erros, porque o erro já não seria encarado como tal, mas sim como tentativas e aprendizados.
Iria ver o surgimento de seres que me lembrariam de tantos outros que eu já conhecera. De repente um Julio Verne, da Vinci, olha o Newton, Euler, que maravilha isso saiu também de mim, Darwin, Isaac Newton, o Asimov, Artur Clarck, Madre Tereza... quem é aquele?
Que rapaz atrevido, quem ele me lembra? Querendo voar até mim? Como isso me deixa feliz! Deixa-o tentar, mas é muito cedo, tem tanto ainda pra aprender pra estar aqui de ombros comigo!


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Perdas



Foram dois anos e pouco de luta contra um câncer (carcinoma no cárdio) terminando em 23 de Julho de 2006. Meu Pai de saudável, cheio de força e ativo como nunca, passou a lutar um combate do qual não sairia vitorioso. Meu maior balaústre, minha coluna de sustentação. Lutei como se fosse a minha carne que se esvairia. Diagnosticado o carcinoma de grau 4, começou a via sacra à médicos e descobrimos que todos opinaram por operar. A primeira cirurgia pegou meu Pai forte e as oito horas para a retirada do estômago e uma parte do esôfago foram suportadas.  O próximo ano foi de adaptação e até comemoramos num restaurante alemão, comendo eisbein com muito chopp, por minha conta é claro, mas não tinha acabado.
Na revisão de um ano, outro tumor foi encontrado nas fronteiras da operação. Uma nova cirurgia, essa já com um risco e uma esperança completamente diferentes. Um resultado trágico, uma semana em coma e meu Pai voltou outra pessoa, fraca, esgotada. Uma estricção formada na emenda do trecho de intestino com o que restou da traqueia impedia a ingestão de alimentos. Vivi os momentos mais tensos com as tentativas de desobstrução através de cautérios que queimavam e abriam desta forma a passagem para os alimentos, mas com o tempo, esta intervenção se tornou semanal. Eu literalmente conheci meu pai por dentro. Trabalhei de assistente médico, ajudando na localização do melhor caminho a percorrer na desobstrução, fui enfermeiro limpando o sangue que se esvairia pelo chão do ambulatório, fui guia de um Homem sem forças durante seções de quimioterapia e radioterapia, decidi por intervenções ao meio de uma equipe de residência do Hospital das Clinicas, num momento onde um assistente tratou meu Pai como cadáver vivo.

No velório eu estava inconsolável, sentindo uma derrota sem tamanho e só uma das inúmeras tentativas de consolo trouxe um alento, quando um sábio de tão simples amigo me disse:
-vocês não perderam, tinha que acontecer, seu Pai me disse que ele só fez a primeira cirurgia, pois viu sua luta e disposição, por ele a vida tinha acabado ali, foi você que o manteve vivo, não se culpe! (Obrigado André).


Esta realidade esclarecida me deu forças pra continuar meu caminho, que só tomaria rumo mesmo alguns anos depois





(Bread  - everything I own 1972)

Você me protegeu das coisas ruins,
Me manteve aquecido, me manteve aquecido.
Você entregou minha vida para mim,
Me libertou, me libertou.
Os melhores anos que eu conheci,
Foram todos os anos que tive com você.


Ganhos


14 de Fevereiro de 2009, as 5:01 h da manhã, numa cesariana simples, chegou o Murilo.

Simples?

Foram onze (11) anos de espera, numa endometriose estranha; duas (2) videolaparoscopias, quatro (4) inseminações assistidas; sete (7) inseminações in vitru; três (3) perdas antes dos três (3) meses de gestação; trezentas (300) injeções; mil e seiscentas (1600) cápsulas de comprimidos variados; onze (11) anestesias gerais e uma (1) raquidiana, simples assim!

A chegada do Murilo trouxe um ensinamento, o de não desistir. Lembro-me daquele dia chuvoso, voltando de São Paulo, tinha sido a terceira consulta, três semanas esperando a confirmação de que estaríamos de alta e teríamos a gestação tão sonhada, mas que nada. O coração parara, era a terceira gestação perdida, a chuva do lado de fora do carro era torrencial, mas não se comparava a chuva do lado de dentro de nós. A única conversa que tínhamos era de que não tentaríamos de novo, a dor era insuportável, teríamos que esperar que o organismo expulsasse o material genético, uma curetagem nos tiraria o resto de esperança.

Voltei ao trabalho e desolado contei para algumas pessoas que haviam compartilhado os momentos de expectativa. Disse na minha dor, “desisto”.

Dois dias depois, minha cabeça não parava de querer achar a solução e comecei a digitar no Google: Infertilidade..não, aborto..não, aborto repetido..não, aborto recorrente, Isso! A pesquisa começou a trazer milhares de depoimentos e histórias, muitas perdas, muitas causas, mas no meio das páginas veio um depoimento de uma moça de Salvador. Fotos de uma criança linda, milhares de agradecimento e neles, junto com os dizeres estava: - “apesar de tantas injeções”, obrigado Dr. Barini!

Barini...Autoimunidade, Aloimunidade, nossa! Exatamente os sintomas, as mesmas coisas, acho que...Claro que achei!

Nossos médicos disseram que era só uma teoria, que os dados usados pra relatar 75% de sucesso eram sem cunho científico, mas quem é o roto pra falar do rasgado. A dor valia todos os investimentos, marcamos consultas, detectamos a inexistência do tal do anti-anticorpo, fizemos a vacina e o resultado foi este, liberados pra nossa sétima inseminação FIV.

Tivemos sucesso. Primeiro beta HCG deu 61, dois dias depois 109, primeiro ultrassom e embrião com 2 mm, uma semana depois 7,6 mm. O batimento cardíaco normal. Trinta e oito dias depois da transferência tivemos alta e a gravidez seria normal. Simples, rápido e indolor.

Com três meses de gravidez, novamente sangramento, corremos para o pronto socorro, desta vez, já nos preparando para o pior, mas dentro da Cris tinha um feto, com o coração batendo 167 vezes por minuto e aparentemente perfeito.

Todos os ultrassons, todos os beta HCG´s estão tabulados, me tornei especialista na vida como tinha ficado da morte.





(Bread -  if  1971)
E se o mundo fosse parar de girar girando lentamente até morrer
Eu ficaria no final com você
E quando o mundo acabar
Aí uma por uma, as estrelas apagariam
E nós simplesmente voaríamos para longe.


Perdas e Ganhos


A saga de escrever meus pouco-modestos e nada despretensiosos pergaminhos começa num vazio entre uma perda irreparável e um ganho escomunal.

Meu filho completaria um ano e tudo se encaminhava para uma vida tranquila, com tudo a favor, mas não foi. Entrei no maior dos parafusos mentais, me senti incapaz de repetir a criação que meu Pai me dera. Senti-me perdido sem entender de onde vinha minha força e também minha fraqueza. Precisava de ajuda para sair de uma espiral de infelicidade que me acercava, pela incapacidade de me sentir querido. Procurei ajuda e encontrei, na psicanálise Junguiana.

Ninguém é tão forte que nunca sentirá a dor da solidão nem tão fraco que não se sensibilize com as oportunidades que a vida nos dá de forma tão amorosa!

Comecei então a viagem para dentro que depois descobri que era na verdade, uma viagem para dentro, entendendo o que veio de fora e depois, para o alto sem limites.

Todos nós merecemos saber que a vida tem um sentido e uma direção e não somos meros passageiros, na verdade participamos do planejamento e da execução, podendo eventualmente participar da avaliação da mesma, dependendo de nossa capacidade em querer.

Aubrey - Bread 1973
Assim como uma melodia que todos conseguem cantar
Se retirarmos as palavras que rimam não há mais significado.



terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Dementador



Olhei no espelho quando fui fazer a barba e vi uma protuberância avermelhada na sobrancelha direita. Uma espinha interna. Será que um dia me livro desta adolescência eterna? Sabe o que significa isso? É hora de escrever. Afinal, meu filho está saindo das fraldas, já, e não tenho tempo a perder.
    Era início de 1980, começava a oitava série, tinha vindo da sétima “B”, classe dos menos privilegiados mentalmente ou dos alienígenas, como era meu caso, vindo de São Paulo. Uma classe bem divertida e maluca, que na junção com a sétima “A”, classe dos fresquinhos, deu origem à “Oitava Única”. Jogava na seleção da sétima “B” e fui o primeiro a marcar um gol oficial na quadra da Escola Municipal de Primeiro Grau Antonino Messina, no Bonfiglioli, Jundiaí, um ano antes. Na educação física, a nossa classe, “Oitava Única”, era mesclada com a sexta série dos repetentes, sexta “B”. Muitos alunos eram da nossa idade ou mais velhos - então, estava tudo bem. Em momentos de descontração, depois da educação física, jogávamos vôlei, um esporte tranquilo, sem contato físico. Sem contato Físico? Fala isso para o Batata. Era um sujeito que não parava de se mexer, com olhar vidrado; toda vez que a bola caía no chão da quadra, ele passava por baixo da rede e chutava o Xáxa (Nasser), um libanês que tinha um biótipo engraçadinho, meio gordinho, um pouco lembrando imigrantes da Mongólia. Essa agressividade do Batata, seguida da passividade do Xáxa, incomodava-me. Apesar dos dois serem de outra sala, aquele justiceiro mascarado que vivia dentro de mim me cutucava para fazer algo e fiz. Bronqueei com o desalmado para ele parar de chutar o garoto. Imagina a reação do Batata?
    – Vou bater em você, então, me espera que vou te pegar na saída!
    Olha a encrenca, vocês assistiram a aquele filme em que o “nerdinho” arrumou confusão com o marginal da escola e o grandalhão disse que ia destroçar o frangote na saída? Então, eu era o frangote a ser destroçado. Comecei a me borrar de medo ali mesmo e fui rapidamente para casa. Naquele dia, na entrada da escola, cheguei em cima da hora e me misturei com a molecada para não ser visto; também não saí para o recreio. Como eu era covarde... (ou prudente?). Este ritual de amedrontamento fluiu por mais de uma semana, sempre que o Batata me via, vinha em minha direção e eu disfarçava me escondendo. Meus amigos de classe nunca souberam - eu tinha era mais vergonha de demonstrar medo. O medo, mesmo, ficava em segundo plano diante disso.
    Quis o destino que o futebol me redimisse. Estávamos disputando o interclasses, nosso time, composto pelos jogadores de sempre, estava inflado com os “jogadores de fim de semana”, que queriam sua oportunidade de participar da festa. Estes mostraram grande habilidade e deram show para as menininhas nos primeiros jogos, que foram bem fáceis, pois disputávamos contra crianças menores. Enfim, chegou a grande final, numa quinta-feira. Eu estava em baixa, pois só aparecia, mesmo, quando o bicho pegava. Já estava desanimado pela situação com o Batata, encontrava-me num momento ruim. Os adversários eram os meninos grandinhos da sexta “B” - B de Batata?  O futebol, principalmente o de salão, era uma questão de família: meu pai tinha sido duas vezes artilheiro do Campeonato Metropolitano de São Paulo e tinha um chute de quebrar dedos. Eu queria fazer valer o sangue, mas estava longe de ser o suprassumo do esporte, principalmente pela característica de ser inconstante quando o jogo não era para valer. Naquele dia, estávamos sem o Donizete, artilheiro do time, e o Pipoca, nosso goleiro titular; faltou, para variar, o Mi; o segundo goleiro também foi viajar no feriado prolongado e tivemos que improvisar o Aurélio no gol. Os grandes jogadores, sensações das meninas não começaram jogando, o carregador de pianos aqui iniciou a partida e só vou me lembrar de um jogador da nossa linha: o Macalé (Divanir), malabarista da bola, mas que tinha certo preconceito de jogar comigo, talvez porque eu fosse branquinho pobre.
    O time adversário vinha atropelando os concorrentes e havia, além do Batata, o goleiro de cujo nome não me recordo, mas era do infanto-juvenil do Guarani de Campinas. Bola em jogo, e o Aurélio deu sinais de nervosismo, na primeira bola ao gol, errou o chute e a “bola pesada” bateu na trave - ele praticamente caiu sentado sobre ela. Não é demérito o que conto dele, este meu Amigo, seria o nosso grande “fixo” do esquadrão Panzer do “Laranja Mecânica” - mas esta é uma outra história. O primeiro tempo acabou como começou, muito nervosismo, nenhuma jogada brilhante. Imaginei, na minha solidão do intervalo, “vão me tirar do time”. Para minha surpresa (minha autoimagem era embaçada mesmo), deixaram-me no time e até houve uma discussão entre os reservas porque o Roberto queria entrar no meu lugar e foi barrado.
    Segundo tempo rolando e logo no comecinho fui puxar um contra-ataque da nossa esquerda: vi o Macalé no meio da quadra e dei um calcanhar para ganhar tempo, e não é que o desaforado ficou bravo que a bola não chegou redonda e deu com as mãos para cima, reclamando e desistindo da jogada? Corri para consertar a besteira, o defensor, que cortou a bola em direção ao seu próprio gol, não percebeu a minha atitude e foi só protegê-la. O goleiro, até aquele momento do campeonato, inviolável, percebeu o meu deslocamento e saiu em direção à bola - dei tudo, esbarrando com o defensor e, naquele milímetro antes do pé do goleiro, dei um biquinho e marquei no canto direito da minha vista, um dos mais emocionantes gols da minha carreira. Voltei correndo para o meio da quadra, dando aquele pulo e o soco no ar, como se fosse o Rei. A comemoração foi muito vibrante e todos, inclusive do banco de reservas, entraram em quadra pra comemorar.
    O jogo não tinha acabado e, então, veio minha redenção definitiva. Agora só jogava o time deles e o Batata começou a arriscar de onde pegava a bola. Tornei-me uma barreira, dava carrinho de um lado da quadra, corria para o outro, dava carrinho novamente, mandava a bola para fora - lembro-me da expressão de desolado do Batata, que não conseguiu que nenhum de seus chutes passasse da minha marcação. Ganhamos, ganhei e nunca mais me escondi dele, pelo contrário, ganhei seu respeito e descobri que o sangue dos Iuras corria em minhas veias futebolísticas (para registrar, meu avô Estevão foi médio-volante na Portuguesa-Santista).
    Não há outra lição nesse relato, foi só uma forma de relembrar enquanto a memória está viva. Talvez o maior legado deste jogo, vendo agora, tenha sido a reconstrução do que eu via em mim mesmo. Na época, isso não aconteceu, senti-me, logo após a partida, esquecido. Ninguém para comemorar, como se aquela partida não tivesse existido. Nenhum malfeitor para ter medo. Só as paixões platônicas também pela “gordinha pesada” e os sonhos com Urubus “dementadores”.

    Assim como as criaturas do Harry Poter, as lembranças boas conseguem nos livrar dos seres espectrais. Vou ficar, então, com o salto e o soco no ar, com o alívio de ter tomado a decisão certa e não ter desistido dos meus sonhos!

Rita Lee pra vocês:

“Pegar fogo nunca foi atração de circo,
Mas de qualquer maneira pode ser um caloroso espetáculo”

“Mas meus nervos são de aço
Pra pedir silêncio eu berro
Pra fazer barulho eu mesma faço
ou não!..."