Do Latim coelum, formada do grego coilos, côncavo, porque o céu parece uma imensa concavidade.
Quando
assisti ao filme amor além da vida, fiquei
pensando além de muitas outras coisas, como seria o meu céu. O filme, pra quem
infelizmente não viu, no começo, mostra o céu como sendo um apanhado de coisas
marcantes e pessoais. Especificamente o céu do personagem principal (Robin
Williams) era numa pintura óleo sobre tela que a esposa ,quando viva, estava
pintando.
No
meu céu, meu Pai chegaria em casa com aquela japona marrom dele e traria no
bolso pacotes de figurinhas da copa de 70 e eu e minha irmã abriríamos ansiosos
pra colá-las no álbum e eu especificamente pra bater bafo com as repetidas. Ficaria
décadas olhando a Lua com ele naquele dia. O cheiro vindo do forno seria
da lasanha com muito creme de leite que minha mãe fazia. Os dias seriam sempre
de sol, mas não o sol escaldante e sim um sol que sempre aparece depois de uma
torrencial chuva de verão, daquelas quando eu ficava olhando pela janela e
depois quando parava, eu ia pra calçada fazer o meu barquinho de papel sumir na
enxurrada. Meu avô Antônio brincaria de serrador comigo todos os dias pela
manhãzinha ao acordar e depois me contaria suas histórias de como ele era
especial quando novo (Ele foi especial a vida toda!). Faria picnik com minhas
tias Lu, Lau e Neusa, tomando leite condensado na lata, escondido da minha avó
Emilia. Nas noites de São João sairia com meu primo Vanderlei, visitando todas
as fogueiras da vizinhança, tomando um pouquinho de quentão e comendo muito
pinhão. No ano novo comeríamos na casa do seu Pedro (e eu ficaria sem jeito
quando a Elvira olhasse pra mim com aquela cara de menina madura de mais, me censurando
por ser criança de mais), depois passaríamos na casa do Avô Estevão pra
comemorar o aniversário dele, com a tia Lurdes o Tio Zé e a minha madrinha a
Avó Elza. Conversaria com o Aurélio (portuga) na sala do piano da casa dele,
sentados no confortável sofá e falaríamos sobre nossos planos de tomar o poder
do País, começando por invadir o paiol do 12º GAC de Jundiaí e de lá o poder e
do poder distribuiríamos a justiça e faríamos nosso País uma potência e exemplo
para o mundo, tudo isso ouvindo Chico e no finzinho do papo um tal de Ira!.
Lavaria o Alfa Romeo velho do meu Pai todos os sábados, junto com o Zé Augusto
e faríamos a macarronada improvisada com o vinho de barrica. Na faculdade só
assistiria aula de estatística, só pra matar as duas primeiras aulas jogando
sinuca com o João e depois na volta do intervalo entrar na classe e ser
recebido com aquele olhar de felicidade do professor, por sermos os únicos a entender
e resolver aqueles problemas de números complexos (i). Jogaria Total Anihilation
diariamente, por 6 horas seguidas com o André. Perder-me-ia no metrô de Paris
com o Leandro. Teria um sócio chamado Marcos e passaria a eternidade sem nunca
discutir assuntos sem importância e decidindo sem medo de errar. Projetaria
máquinas de fazer vento, nunca antes tentadas e agiria como se fosse só
brincadeira. Seria religioso como no batizado da minha Irmã Sam, cantando Anjo
de Deus do Padre Marcelo, com a Carmelita do meu lado (fomos os padrinhos e me
emocionaria tanto que viria os anjos mesmo). Amaria minha esposa Cris, com
todas as paixões que tive na vida. Chegaria toda tarde em casa e brincaria com
o Tiger aquele cachorro que foi só meu e nessa hora ouviria o Vlad meu amigo e
irmão tocando e cantando ao vivo pra mim. Assistiria intermináveis seções
repetidas do Wall-E com meu filho Murilo e Don Juan de Marco com minha esposa. O
Mais perto do Rap e do Funk que passariam lá no meu céu seria o Eminen cantando
com a Rihanna – Love the Way You Lie. Permitiria-me ficar sozinho sem me sentir
culpado de gostar às vezes de ficar assim. Volitaria como em meus sonhos e iria
puxar as barbas de Deus.
Poxa,
vocês repararam em algo?
Um
céu de coisas que tive na terra! (Quer dizer algo?)
Mas
tem coisas que nunca fiz e queria no meu céu...
Jogar
futebol com Estevão Pai (avô), Estevão Filho (Pai) e o Murilo (Filho) e todo o
Laranja Mecânica... Campo dos Sonhos!
Quando
Sócrates me disse - "conhece-te a ti mesmo", foi o Sócrates ou foi a
Cidinha minha psicóloga? Não lembro, tanto faz!
Foi
a pedra de toque da inteligência emocional: ter a consciência de nossos
sentimentos no momento exato em que eles ocorrem.
O
Côncavo é o formato de maior contingência de coisas que conheço, talvez seja
por isso que o céu é esse grande côncavo que armazena nossas lembranças e
desejos.










