sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Céu




Do Latim coelum, formada do grego coilos, côncavo, porque o céu parece uma imensa concavidade.
Quando assisti ao filme amor além da vida, fiquei pensando além de muitas outras coisas, como seria o meu céu. O filme, pra quem infelizmente não viu, no começo, mostra o céu como sendo um apanhado de coisas marcantes e pessoais. Especificamente o céu do personagem principal (Robin Williams) era numa pintura óleo sobre tela que a esposa ,quando viva, estava pintando.

Vou escrever aqui, tudo o que eu gostaria de encontrar no meu céu, tudo não é bem a palavra, ah sim! Amostra do que eu gostaria de encontrar no meu céu.

No meu céu, meu Pai chegaria em casa com aquela japona marrom dele e traria no bolso pacotes de figurinhas da copa de 70 e eu e minha irmã abriríamos ansiosos pra colá-las no álbum e eu especificamente pra bater bafo com as repetidas. Ficaria décadas olhando a Lua com ele naquele dia. O cheiro vindo do forno seria da lasanha com muito creme de leite que minha mãe fazia. Os dias seriam sempre de sol, mas não o sol escaldante e sim um sol que sempre aparece depois de uma torrencial chuva de verão, daquelas quando eu ficava olhando pela janela e depois quando parava, eu ia pra calçada fazer o meu barquinho de papel sumir na enxurrada. Meu avô Antônio brincaria de serrador comigo todos os dias pela manhãzinha ao acordar e depois me contaria suas histórias de como ele era especial quando novo (Ele foi especial a vida toda!). Faria picnik com minhas tias Lu, Lau e Neusa, tomando leite condensado na lata, escondido da minha avó Emilia. Nas noites de São João sairia com meu primo Vanderlei, visitando todas as fogueiras da vizinhança, tomando um pouquinho de quentão e comendo muito pinhão. No ano novo comeríamos na casa do seu Pedro (e eu ficaria sem jeito quando a Elvira olhasse pra mim com aquela cara de menina madura de mais, me censurando por ser criança de mais), depois passaríamos na casa do Avô Estevão pra comemorar o aniversário dele, com a tia Lurdes o Tio Zé e a minha madrinha a Avó Elza. Conversaria com o Aurélio (portuga) na sala do piano da casa dele, sentados no confortável sofá e falaríamos sobre nossos planos de tomar o poder do País, começando por invadir o paiol do 12º GAC de Jundiaí e de lá o poder e do poder distribuiríamos a justiça e faríamos nosso País uma potência e exemplo para o mundo, tudo isso ouvindo Chico e no finzinho do papo um tal de Ira!. Lavaria o Alfa Romeo velho do meu Pai todos os sábados, junto com o Zé Augusto e faríamos a macarronada improvisada com o vinho de barrica. Na faculdade só assistiria aula de estatística, só pra matar as duas primeiras aulas jogando sinuca com o João e depois na volta do intervalo entrar na classe e ser recebido com aquele olhar de felicidade do professor, por sermos os únicos a entender e resolver aqueles problemas de números complexos (i). Jogaria Total Anihilation diariamente, por 6 horas seguidas com o André. Perder-me-ia no metrô de Paris com o Leandro. Teria um sócio chamado Marcos e passaria a eternidade sem nunca discutir assuntos sem importância e decidindo sem medo de errar. Projetaria máquinas de fazer vento, nunca antes tentadas e agiria como se fosse só brincadeira. Seria religioso como no batizado da minha Irmã Sam, cantando Anjo de Deus do Padre Marcelo, com a Carmelita do meu lado (fomos os padrinhos e me emocionaria tanto que viria os anjos mesmo). Amaria minha esposa Cris, com todas as paixões que tive na vida. Chegaria toda tarde em casa e brincaria com o Tiger aquele cachorro que foi só meu e nessa hora ouviria o Vlad meu amigo e irmão tocando e cantando ao vivo pra mim. Assistiria intermináveis seções repetidas do Wall-E com meu filho Murilo e Don Juan de Marco com minha esposa. O Mais perto do Rap e do Funk que passariam lá no meu céu seria o Eminen cantando com a Rihanna – Love the Way You Lie. Permitiria-me ficar sozinho sem me sentir culpado de gostar às vezes de ficar assim. Volitaria como em meus sonhos e iria puxar as barbas de Deus.

Poxa, vocês repararam em algo?

Um céu de coisas que tive na terra! (Quer dizer algo?)

Mas tem coisas que nunca fiz e queria no meu céu...

Jogar futebol com Estevão Pai (avô), Estevão Filho (Pai) e o Murilo (Filho) e todo o Laranja Mecânica... Campo dos Sonhos!

Quando Sócrates me disse - "conhece-te a ti mesmo", foi o Sócrates ou foi a Cidinha minha psicóloga? Não lembro, tanto faz!

Foi a pedra de toque da inteligência emocional: ter a consciência de nossos sentimentos no momento exato em que eles ocorrem.
O Côncavo é o formato de maior contingência de coisas que conheço, talvez seja por isso que o céu é esse grande côncavo que armazena nossas lembranças e desejos.


Eminem (feat. Rihanna) Love The Way You Lie 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sou Deus e agora?




Estava na praia, neste começo de ano (2012), debaixo de uma tenda, com uma parte da família. Caipirinha na mão, muito sol. Escutei um barulho de motor berrando, no momento em que me virei pra olhar o Fiat 147, a Cris já falou:
-quer ver que vai atolar?
Não deu outra, o rapaz quis manobrar no final da rua e entrou na praia, foi virar e enterrar praticamente toda a roda dianteira na areia. Falei em tom de ironia:
– Tiro ele de lá ou espero pra ele sentir a burrada que fez?
Deixei-o lá, continuei a caipira e nuns minutos mais tarde a Cris pediu para eu buscar um guaraná pro Murilo, visto que o atendimento em praia não é cinco estrelas.
Levantei-me com uma dificuldade enorme e me dirigi à barraca, neste caminho observei os dois rapazes que estavam com o motorista do possante, tentarem calçar as rodas dianteiras com madeira e entulhos que achavam e ninguém, absolutamente ninguém em uma praia lotada foi ajudá-los.
Pedi para a moça que veio em minha direção quando entrei na barraca (ela iria leva-lo em seguida para a barraca) e me virei em seguida para passar pelo carro, no meu caminho de volta.
Encostei-me ao capo, do lado do passageiro e distribui em voz de comando:
-Não acelera e vamos procurar um lugar pra fazer força!
Os dois ajudantes repetiram a ordem pro motorista e tentaram achar um lugar para pegar no carro, nesta hora eu abracei a frente do carrinho, achando um lugar onde não amassasse e dando um pequeno urro, arranquei o dito cujo do buraco, fazendo uma força exatamente à 45 º do solo. Passei pro outro lado e segurando na coluna do lado do motorista falei com muita calma:
-Acelera bem de vagar que vou te colocar no caminho.
E uns dois metros pra frente o carro encontrou solo firme e deixei-os, sem olhar pra traz me fui em direção aos meus e ouvi um tríplice agradecimento sobre os quais dei um aceno de mão sem me virar, como se só tivesse passado por ali, não sendo nada usar todos os meus conhecimentos a respeito.

A vida é assim, se formos nos aventurar em local desconhecido, ou estamos muito bem acompanhados ou temos que torcer pela complacência divina, o que foi o caso da pequena história.

Pensando nisso, entrei em devaneios e muitas reflexões. Lembrei-me daquele livro que virou filme, “Nosso Lar” do Chico que não é o Buarque. E voltei a ter pensamentos elevados. Pra quem assistiu ou leu, entenderá melhor, para quem não, vou ser mais claro possível. A doutrina espírita reza que temos uma continuidade num plano superior, mas que está muito próximo fisicamente de nosso planeta, de onde podemos planejar nossas voltas e as situações as quais evoluiremos se passarmos como planejado. Na história, o personagem principal, André Luiz, vive estas descobertas e num certo momento é visitado pela sua mãe que está num plano mais elevado. Quando assiti ao filme, pela minha total falta de conformidade, já comecei a imaginar como seriam os planos superiores ao plano superior.

Sonhei uma vez, que estava voando, olhei pra cima e pensei se posso voar vou falar com Deus e fui. Comecei a subir, vertiginosamente, velozmente e cheguei.
 O Homem era parecido com o doutor do “de volta pro futuro”, e me recebeu rindo meio descrente e disse:
-Você é atrevido não é rapaz, mas você vai ter seu prêmio, vai voltar e realizar uma grande coisa!
Acabou aí o sonho.

Acredito, numa teoria que surgiu ou sempre esteve lá na minha cabeça ou nas nossas, que se somos imagem e semelhança do Criador, nosso caminho vai para uma escalada sem proporções, onde evoluiremos numa escala sem fim, até chegarmos a um ponto onde teremos acumulado uma quantidade tão grande de saber que seremos chamados para o lado do nosso criador e Ele dirá:
-Agora você já aprendeu até a teoria da unificação dos amores, você já é “Nós” e chegou a hora de criar seu próprio Universo

Nesse momento, me imagino abrindo espaço no meu interior e começando um Mundo (Leia Sutil), criando as regras físicas, todas as leis naturais, tudo de forma a não ter mais que pensar nos detalhes, criando criaturas que criavam, tudo partindo do meu corpo e o universo surgindo, com cada vez menos contato comigo, mas cada vez mais parecido comigo. Sim, só com os infinitos e inteligentes ajudantes e eu contemplando a tudo aquilo que dei origem, vendo tudo existir dentro do meu Ser e quando a criação estivesse num estágio avançado eu contemplaria meus semelhantes seres, todos os seres muito semelhantes entre si, semelhantes a força que os permitiu e isto me completaria.
Vendo o surgimento das eras, eu iria me lembrar do meu infinito caminho até aquele momento e tudo me pareceria bom.

E tudo me pareceria aprazível, mesmo vendo os erros, porque o erro já não seria encarado como tal, mas sim como tentativas e aprendizados.
Iria ver o surgimento de seres que me lembrariam de tantos outros que eu já conhecera. De repente um Julio Verne, da Vinci, olha o Newton, Euler, que maravilha isso saiu também de mim, Darwin, Isaac Newton, o Asimov, Artur Clarck, Madre Tereza... quem é aquele?
Que rapaz atrevido, quem ele me lembra? Querendo voar até mim? Como isso me deixa feliz! Deixa-o tentar, mas é muito cedo, tem tanto ainda pra aprender pra estar aqui de ombros comigo!


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Perdas



Foram dois anos e pouco de luta contra um câncer (carcinoma no cárdio) terminando em 23 de Julho de 2006. Meu Pai de saudável, cheio de força e ativo como nunca, passou a lutar um combate do qual não sairia vitorioso. Meu maior balaústre, minha coluna de sustentação. Lutei como se fosse a minha carne que se esvairia. Diagnosticado o carcinoma de grau 4, começou a via sacra à médicos e descobrimos que todos opinaram por operar. A primeira cirurgia pegou meu Pai forte e as oito horas para a retirada do estômago e uma parte do esôfago foram suportadas.  O próximo ano foi de adaptação e até comemoramos num restaurante alemão, comendo eisbein com muito chopp, por minha conta é claro, mas não tinha acabado.
Na revisão de um ano, outro tumor foi encontrado nas fronteiras da operação. Uma nova cirurgia, essa já com um risco e uma esperança completamente diferentes. Um resultado trágico, uma semana em coma e meu Pai voltou outra pessoa, fraca, esgotada. Uma estricção formada na emenda do trecho de intestino com o que restou da traqueia impedia a ingestão de alimentos. Vivi os momentos mais tensos com as tentativas de desobstrução através de cautérios que queimavam e abriam desta forma a passagem para os alimentos, mas com o tempo, esta intervenção se tornou semanal. Eu literalmente conheci meu pai por dentro. Trabalhei de assistente médico, ajudando na localização do melhor caminho a percorrer na desobstrução, fui enfermeiro limpando o sangue que se esvairia pelo chão do ambulatório, fui guia de um Homem sem forças durante seções de quimioterapia e radioterapia, decidi por intervenções ao meio de uma equipe de residência do Hospital das Clinicas, num momento onde um assistente tratou meu Pai como cadáver vivo.

No velório eu estava inconsolável, sentindo uma derrota sem tamanho e só uma das inúmeras tentativas de consolo trouxe um alento, quando um sábio de tão simples amigo me disse:
-vocês não perderam, tinha que acontecer, seu Pai me disse que ele só fez a primeira cirurgia, pois viu sua luta e disposição, por ele a vida tinha acabado ali, foi você que o manteve vivo, não se culpe! (Obrigado André).


Esta realidade esclarecida me deu forças pra continuar meu caminho, que só tomaria rumo mesmo alguns anos depois





(Bread  - everything I own 1972)

Você me protegeu das coisas ruins,
Me manteve aquecido, me manteve aquecido.
Você entregou minha vida para mim,
Me libertou, me libertou.
Os melhores anos que eu conheci,
Foram todos os anos que tive com você.


Ganhos


14 de Fevereiro de 2009, as 5:01 h da manhã, numa cesariana simples, chegou o Murilo.

Simples?

Foram onze (11) anos de espera, numa endometriose estranha; duas (2) videolaparoscopias, quatro (4) inseminações assistidas; sete (7) inseminações in vitru; três (3) perdas antes dos três (3) meses de gestação; trezentas (300) injeções; mil e seiscentas (1600) cápsulas de comprimidos variados; onze (11) anestesias gerais e uma (1) raquidiana, simples assim!

A chegada do Murilo trouxe um ensinamento, o de não desistir. Lembro-me daquele dia chuvoso, voltando de São Paulo, tinha sido a terceira consulta, três semanas esperando a confirmação de que estaríamos de alta e teríamos a gestação tão sonhada, mas que nada. O coração parara, era a terceira gestação perdida, a chuva do lado de fora do carro era torrencial, mas não se comparava a chuva do lado de dentro de nós. A única conversa que tínhamos era de que não tentaríamos de novo, a dor era insuportável, teríamos que esperar que o organismo expulsasse o material genético, uma curetagem nos tiraria o resto de esperança.

Voltei ao trabalho e desolado contei para algumas pessoas que haviam compartilhado os momentos de expectativa. Disse na minha dor, “desisto”.

Dois dias depois, minha cabeça não parava de querer achar a solução e comecei a digitar no Google: Infertilidade..não, aborto..não, aborto repetido..não, aborto recorrente, Isso! A pesquisa começou a trazer milhares de depoimentos e histórias, muitas perdas, muitas causas, mas no meio das páginas veio um depoimento de uma moça de Salvador. Fotos de uma criança linda, milhares de agradecimento e neles, junto com os dizeres estava: - “apesar de tantas injeções”, obrigado Dr. Barini!

Barini...Autoimunidade, Aloimunidade, nossa! Exatamente os sintomas, as mesmas coisas, acho que...Claro que achei!

Nossos médicos disseram que era só uma teoria, que os dados usados pra relatar 75% de sucesso eram sem cunho científico, mas quem é o roto pra falar do rasgado. A dor valia todos os investimentos, marcamos consultas, detectamos a inexistência do tal do anti-anticorpo, fizemos a vacina e o resultado foi este, liberados pra nossa sétima inseminação FIV.

Tivemos sucesso. Primeiro beta HCG deu 61, dois dias depois 109, primeiro ultrassom e embrião com 2 mm, uma semana depois 7,6 mm. O batimento cardíaco normal. Trinta e oito dias depois da transferência tivemos alta e a gravidez seria normal. Simples, rápido e indolor.

Com três meses de gravidez, novamente sangramento, corremos para o pronto socorro, desta vez, já nos preparando para o pior, mas dentro da Cris tinha um feto, com o coração batendo 167 vezes por minuto e aparentemente perfeito.

Todos os ultrassons, todos os beta HCG´s estão tabulados, me tornei especialista na vida como tinha ficado da morte.





(Bread -  if  1971)
E se o mundo fosse parar de girar girando lentamente até morrer
Eu ficaria no final com você
E quando o mundo acabar
Aí uma por uma, as estrelas apagariam
E nós simplesmente voaríamos para longe.


Perdas e Ganhos


A saga de escrever meus pouco-modestos e nada despretensiosos pergaminhos começa num vazio entre uma perda irreparável e um ganho escomunal.

Meu filho completaria um ano e tudo se encaminhava para uma vida tranquila, com tudo a favor, mas não foi. Entrei no maior dos parafusos mentais, me senti incapaz de repetir a criação que meu Pai me dera. Senti-me perdido sem entender de onde vinha minha força e também minha fraqueza. Precisava de ajuda para sair de uma espiral de infelicidade que me acercava, pela incapacidade de me sentir querido. Procurei ajuda e encontrei, na psicanálise Junguiana.

Ninguém é tão forte que nunca sentirá a dor da solidão nem tão fraco que não se sensibilize com as oportunidades que a vida nos dá de forma tão amorosa!

Comecei então a viagem para dentro que depois descobri que era na verdade, uma viagem para dentro, entendendo o que veio de fora e depois, para o alto sem limites.

Todos nós merecemos saber que a vida tem um sentido e uma direção e não somos meros passageiros, na verdade participamos do planejamento e da execução, podendo eventualmente participar da avaliação da mesma, dependendo de nossa capacidade em querer.

Aubrey - Bread 1973
Assim como uma melodia que todos conseguem cantar
Se retirarmos as palavras que rimam não há mais significado.



terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Dementador



Olhei no espelho quando fui fazer a barba e vi uma protuberância avermelhada na sobrancelha direita. Uma espinha interna. Será que um dia me livro desta adolescência eterna? Sabe o que significa isso? É hora de escrever. Afinal, meu filho está saindo das fraldas, já, e não tenho tempo a perder.
    Era início de 1980, começava a oitava série, tinha vindo da sétima “B”, classe dos menos privilegiados mentalmente ou dos alienígenas, como era meu caso, vindo de São Paulo. Uma classe bem divertida e maluca, que na junção com a sétima “A”, classe dos fresquinhos, deu origem à “Oitava Única”. Jogava na seleção da sétima “B” e fui o primeiro a marcar um gol oficial na quadra da Escola Municipal de Primeiro Grau Antonino Messina, no Bonfiglioli, Jundiaí, um ano antes. Na educação física, a nossa classe, “Oitava Única”, era mesclada com a sexta série dos repetentes, sexta “B”. Muitos alunos eram da nossa idade ou mais velhos - então, estava tudo bem. Em momentos de descontração, depois da educação física, jogávamos vôlei, um esporte tranquilo, sem contato físico. Sem contato Físico? Fala isso para o Batata. Era um sujeito que não parava de se mexer, com olhar vidrado; toda vez que a bola caía no chão da quadra, ele passava por baixo da rede e chutava o Xáxa (Nasser), um libanês que tinha um biótipo engraçadinho, meio gordinho, um pouco lembrando imigrantes da Mongólia. Essa agressividade do Batata, seguida da passividade do Xáxa, incomodava-me. Apesar dos dois serem de outra sala, aquele justiceiro mascarado que vivia dentro de mim me cutucava para fazer algo e fiz. Bronqueei com o desalmado para ele parar de chutar o garoto. Imagina a reação do Batata?
    – Vou bater em você, então, me espera que vou te pegar na saída!
    Olha a encrenca, vocês assistiram a aquele filme em que o “nerdinho” arrumou confusão com o marginal da escola e o grandalhão disse que ia destroçar o frangote na saída? Então, eu era o frangote a ser destroçado. Comecei a me borrar de medo ali mesmo e fui rapidamente para casa. Naquele dia, na entrada da escola, cheguei em cima da hora e me misturei com a molecada para não ser visto; também não saí para o recreio. Como eu era covarde... (ou prudente?). Este ritual de amedrontamento fluiu por mais de uma semana, sempre que o Batata me via, vinha em minha direção e eu disfarçava me escondendo. Meus amigos de classe nunca souberam - eu tinha era mais vergonha de demonstrar medo. O medo, mesmo, ficava em segundo plano diante disso.
    Quis o destino que o futebol me redimisse. Estávamos disputando o interclasses, nosso time, composto pelos jogadores de sempre, estava inflado com os “jogadores de fim de semana”, que queriam sua oportunidade de participar da festa. Estes mostraram grande habilidade e deram show para as menininhas nos primeiros jogos, que foram bem fáceis, pois disputávamos contra crianças menores. Enfim, chegou a grande final, numa quinta-feira. Eu estava em baixa, pois só aparecia, mesmo, quando o bicho pegava. Já estava desanimado pela situação com o Batata, encontrava-me num momento ruim. Os adversários eram os meninos grandinhos da sexta “B” - B de Batata?  O futebol, principalmente o de salão, era uma questão de família: meu pai tinha sido duas vezes artilheiro do Campeonato Metropolitano de São Paulo e tinha um chute de quebrar dedos. Eu queria fazer valer o sangue, mas estava longe de ser o suprassumo do esporte, principalmente pela característica de ser inconstante quando o jogo não era para valer. Naquele dia, estávamos sem o Donizete, artilheiro do time, e o Pipoca, nosso goleiro titular; faltou, para variar, o Mi; o segundo goleiro também foi viajar no feriado prolongado e tivemos que improvisar o Aurélio no gol. Os grandes jogadores, sensações das meninas não começaram jogando, o carregador de pianos aqui iniciou a partida e só vou me lembrar de um jogador da nossa linha: o Macalé (Divanir), malabarista da bola, mas que tinha certo preconceito de jogar comigo, talvez porque eu fosse branquinho pobre.
    O time adversário vinha atropelando os concorrentes e havia, além do Batata, o goleiro de cujo nome não me recordo, mas era do infanto-juvenil do Guarani de Campinas. Bola em jogo, e o Aurélio deu sinais de nervosismo, na primeira bola ao gol, errou o chute e a “bola pesada” bateu na trave - ele praticamente caiu sentado sobre ela. Não é demérito o que conto dele, este meu Amigo, seria o nosso grande “fixo” do esquadrão Panzer do “Laranja Mecânica” - mas esta é uma outra história. O primeiro tempo acabou como começou, muito nervosismo, nenhuma jogada brilhante. Imaginei, na minha solidão do intervalo, “vão me tirar do time”. Para minha surpresa (minha autoimagem era embaçada mesmo), deixaram-me no time e até houve uma discussão entre os reservas porque o Roberto queria entrar no meu lugar e foi barrado.
    Segundo tempo rolando e logo no comecinho fui puxar um contra-ataque da nossa esquerda: vi o Macalé no meio da quadra e dei um calcanhar para ganhar tempo, e não é que o desaforado ficou bravo que a bola não chegou redonda e deu com as mãos para cima, reclamando e desistindo da jogada? Corri para consertar a besteira, o defensor, que cortou a bola em direção ao seu próprio gol, não percebeu a minha atitude e foi só protegê-la. O goleiro, até aquele momento do campeonato, inviolável, percebeu o meu deslocamento e saiu em direção à bola - dei tudo, esbarrando com o defensor e, naquele milímetro antes do pé do goleiro, dei um biquinho e marquei no canto direito da minha vista, um dos mais emocionantes gols da minha carreira. Voltei correndo para o meio da quadra, dando aquele pulo e o soco no ar, como se fosse o Rei. A comemoração foi muito vibrante e todos, inclusive do banco de reservas, entraram em quadra pra comemorar.
    O jogo não tinha acabado e, então, veio minha redenção definitiva. Agora só jogava o time deles e o Batata começou a arriscar de onde pegava a bola. Tornei-me uma barreira, dava carrinho de um lado da quadra, corria para o outro, dava carrinho novamente, mandava a bola para fora - lembro-me da expressão de desolado do Batata, que não conseguiu que nenhum de seus chutes passasse da minha marcação. Ganhamos, ganhei e nunca mais me escondi dele, pelo contrário, ganhei seu respeito e descobri que o sangue dos Iuras corria em minhas veias futebolísticas (para registrar, meu avô Estevão foi médio-volante na Portuguesa-Santista).
    Não há outra lição nesse relato, foi só uma forma de relembrar enquanto a memória está viva. Talvez o maior legado deste jogo, vendo agora, tenha sido a reconstrução do que eu via em mim mesmo. Na época, isso não aconteceu, senti-me, logo após a partida, esquecido. Ninguém para comemorar, como se aquela partida não tivesse existido. Nenhum malfeitor para ter medo. Só as paixões platônicas também pela “gordinha pesada” e os sonhos com Urubus “dementadores”.

    Assim como as criaturas do Harry Poter, as lembranças boas conseguem nos livrar dos seres espectrais. Vou ficar, então, com o salto e o soco no ar, com o alívio de ter tomado a decisão certa e não ter desistido dos meus sonhos!

Rita Lee pra vocês:

“Pegar fogo nunca foi atração de circo,
Mas de qualquer maneira pode ser um caloroso espetáculo”

“Mas meus nervos são de aço
Pra pedir silêncio eu berro
Pra fazer barulho eu mesma faço
ou não!..."




terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Máscaras



Hoje é 23 de Dezembro de 2011, vinha para o trabalho, um meio-pau, como costuma-se  dizer de um dia de trabalho em que só trabalhamos metade do dia..blá blá blá blá blá.

Achei uma pasta de musicas no pen drive do carro do Fredie Mercury, pra ser mais machão, poderia chamá-lo de Alfredo, (nossa, destruí o camarada agora!) tocou uma musica que gosto, The Great Pretender.


Lembrei-me, dos estudos de inglês (língua, aliás, que por algum trauma que um dia me livrarei, tenho dificuldades enormes para falar), da expressão False Friends e do vocábulo pretender, que por mais que pareça significar pretender, na verdade quer dizer fingir, enganar, disfarçar, e coisas assim dissimulando tudo. Pra clarear, copiei uma explicação que achei pronta, melhor do que inventar a roda:
“Os False Friends (Falsos cognatos) são termos normalmente derivados do latim e que apresentam forma semelhante em Português e Inglês, mas significados diferentes”

Divagando na filosofia, pensei em como disfarçamos coisas, mas por que, todo mundo faz isso de diversas formas? Muitas vezes para autoproteção, outras por costume, a maioria das vezes só por ter autoimagem diferente da maioria das pessoas e às vezes por mau-caratismo mesmo.

Sem chance de não me lembrar de algo que li muito jovem, sobre a persona, aquela da psicologia e que também é a que significa máscara teatral. Sabia que em Veneza as máscaras eram usadas para que os nobres pudessem se misturar as pessoas comuns e curtir o carnaval nas ruas e eram obrigatórias?



Uma parte das coisas que queria dizer, já disse, um pouco antes, quando divaguei. Nem sempre é necessário ter as respostas, mas sempre é necessário fazer as perguntas.

O ser humano nasce sem saber-se Um, somos na verdade um organismo, com trilhões de células individuais, fazendo funções coletivas, uma complexidade, mas a consciência do EU, vai se formando e num momento compreendido na mais tenra infância, desejamos ser um individuo e passamos a reagir de acordo com uma imagem que criamos de nós mesmos. Reagimos numa situação como se tivéssemos ódio, em outra situação somos amorosos, mas tudo em função desta máscara que construímos. A máscara do chato, do palhaço, do coitado, do intelectual, do faz tudo, do indolente, muitas máscaras, às vezes temos uma pra cada ocasião, mas quando mudamos pouco de máscaras somos chamados de uma pessoa de personalidade.

Pra que serve isso? Na sétima série havia um rapaz na minha sala que tinha cara de bravo, era sempre sério, marrudão mesmo, um dia estávamos jogando bola num terreno baldio e o vizinho do terreno foi dizer que não podíamos jogar lá e ele encarou o homem e disse que ninguém nos tiraria de lá. Bom, hoje em dia ter crianças retardadas assim é mais comum, mas há trinta e tantos anos atrás, respeitávamos os mais velhos e um moleque de 12 anos brigando contra adultos pelo direito que achava que tinha não era tão comum. Em resumo, achei que eu deveria ser que nem ele, mas nunca consegui, eu era muito maleável, acho que não tinha personalidade, acho que não tinha nada que marcasse para aquelas pessoas ao meu redor, sei lá, só sei que encontrei com este rapaz na fase adulta, ele trabalhando numa praça de pedágio, conversamos rapidamente e fiquei sabendo que ele não teve oportunidade de continuar os estudos, continuava com aquela cara fechada, essa característica talvez não o tenha levado a lugar algum, sabe-se lá.
Olhando pelo olhar adulto, provavelmente fui uma pessoa que desenvolveu a personalidade mais lentamente, acredito que não saber exatamente quem eu era me deu múltiplas possibilidades, mas só consegui usufruir disso muito depois da infância e continuo a entender quais máscaras usar. Hoje, por “increça que parível,” não me vejo mais escolhendo máscaras, acho que já foi tudo fundido na minha cara e não tem grandes novidades para fora, só para dentro que continua tudo mudando todo dia.

Será que sem máscaras seríamos grandes moluscos informes? Coisas sem graça, ou seríamos criaturas em paz? Existe evolução em coisas iguais? O mundo é feito de criaturas iguais? Deus é amorfo?

Pensei agora: as máscaras nos protegem, melhoram ou pioram? O importante deve ser não estar contido nela, devemos ser como os nobres em Veneza, nos esconder para sermos iguais, e sentirmos a vida aqui e agora, mesmo sabendo que estamos evoluindo para um mundo muito superior, afinal o lado de lá é do lado de lá!

Outra pergunta que me veio: Se estou evoluindo tanto, por que me deu torcicolo e não passa tão rápido quanto eu queria? Sou o não um ser tããão evoluído. Tenha paciência não é? 




segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Evanescente



Poderia definir alguma coisa evanescente, comparando-a como uma coisa que dura tanto quanto a efervescência de um sal de frutas quando jogado à água, mas isso seria muito simples pra mim!

A primeira recordação minha de datas foi quando estava no primeiro ano na escola Tio Patinhas, na Rua Francisco Fett em São Paulo. Deveria ser um Fevereiro, lembro-me que no dia anterior o dia estava nublado e naquele dia estava ensolarado. Comecei escrevendo o cabeçalho, do lado de um solzinho que tinha acabado de desenhar, tudo copiando da lousa, que a professora tinha acabado de escrever:

São Paulo, 23 de Fevereiro de 1972. O dia está ensolarado.

Percebi que mudava o numero dois do ano e depois daquele dia comecei a me atentar para o ano corrente e nunca mais deixei de ser escravo do tempo.

Em 1972, foi o ano em que meu Pai trabalhava na Bahia e no fundo de casa, numa laje inacabada aconteciam os bailinhos que minha Tia Neusa e seus amigos organizavam lembro-me de nomes, Gigi, Piloto e Dirce, Preto e sua namorada, sei lá acho que Denise, se minha tia ler isso, ela deve voltar ao passado e me mandar o nome da namorada do Preto, que, aliás, era muito branco. Lembro-me da frase na parede BLITZ OF LOVE. Que meu Pai sabiamente e por conhecer um pouco de alemão me explicou que era a conjunção de uma palavra em alemão com uma em inglês e que significava algo como batida de amor, ataque de amor, coisa assim. Agora sei que Blitz significa relâmpago, como querendo dizer algo que chega muito rápido, avassalador. Tinha luz negra e um encerado preto que deixava o ambiente escuro e um globo de isopor cheio de espelhinhos quadradinhos. Este globo ficava no compartimento da direita de quem entrava e logo em baixo existia um desenho de uma cripta, acho que foi o Piloto que desenhou. Eu olhava aquelas luzes todas, os reflexos do globo da luz negra e viajava como se estivesse indo para o espaço sideral, ficou mais que lembranças daquele tempo e lugar, ficaram sonhos de conquistas.

Depois de uns anos, lá nesse fundo de casa existiu a oficina do Nardo, filho do Seu Pedro, dono do bar em frente e que no futuro viria a ser meu padrinho de crisma. Lá conheci uma coisa que me encantou, a pedra de carbureto.
Um Gerador de acetileno é um cilindro com uma cesta onde se coloca o carbureto, que é uma pedra que quando em contato com água, produz o tal gás (CaC2 + 2 H2O -> C2H2 + Ca(OH)2) 


Lembro-me que as pedras que saíam da cesta do gerador eram extremamente quentes e ainda exalavam o gás, pela minha curiosidade alguém que não me lembro, pela primeira vez pegou uma pedra de carbureto e colocando no chão derramou água e ateou fogo. Foi o máximo, uma pedra fazendo fogo e o que sobrou foi um lodo, um nada, um pó que por mais que eu quisesse jogar água de novo, não pegava mais fogo.
Não sabia de onde vinham as pedras, nunca via, só sabia que por mais que tivéssemos pedras elas sempre acabavam e imaginei se as jazidas dessas pedras um dia acabariam e não mais conseguiríamos soldar os carros da oficina e ninguém mais repararia carros no mundo.
Na minha “mente brilhante” neste momento, comecei a tentar solucionar isso e meus heróis imaginários passaram a usar uma arma que eu cientista inventei e que trazia acima do corpo da arma um invólucro de vidro que continha um líquido de várias cores dependendo da intenção da arma e variava de azul, vermelho ao incolor. Este líquido rendia tanto que não seria necessário recarregá-lo mesmo que a batalha fosse muito longa.
 Agora sei de onde a ideia saiu, daquelas máquinas de sorvete americano que tinha no caminho entre minha casa e a dos meus avós, na estrada do Oratório. Quando o sorvete ia surgindo no bocal inferior da máquina eu ficava observando o líquido e nunca via o danado baixar, acho que por isso tinha aquele produto como inextinguível. Não entendia naquela época que o sabor ia também embora tão rápido porque os espaços na matéria para este produto eram maiores ainda do que nos outros. 


Mas...

Nada é inextinguível. Até as lembranças vão se indo e o sentimento parece que se vai com elas. Parece mesmo que alguma coisa fica e não consigo entender onde se armazena, se a separação entre as memórias e os sentimentos ocorre na mente física ou se em algum lugar daquilo que chamamos alma existe uma reserva daquilo que não pode ser só raciocinado.
A cena de escrever o cabeçalho no caderno em 1972 foi há mais de quarenta anos e não me lembro do caderno nem das letras materialmente, mas lembro do sentimento da manhã de sol e da ânsia por conhecer mais. Sabe, continuo tendo esta vontade de conhecer mais e sentir mais o sol nos meus ombros (sunshine on my sholders!).

Algumas músicas trazem coisas que não precisam de complemento, tem uma do Biquíni Cavadão, se chama Descivilização, que diz tanto sobre a perenidade da vida que vou copiar a estrofe sem querer e necessitar explicar:

Na chuva dos dias, meu nome vai fugir
Escorrer pela terra, até que as plantas o suguem
Aí ele será uma presença inaudível em todo lugar
Como algo tão notório e que, por isso, não precisa se falar
Sol sem brilho, luz sem cor
Descivilização
Porque a vida é passageira; e a morte, o trem.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Olho que tudo vê?


Anotem aí: Faça um molho rose, com tomate, creme de leite, ketchup e mostarda. Deixe quentinho na panela. Pique 1 cebola em cubos, pique 6  castanhas do pará e umas 150 gramas de queijo bola. Nestas picações, faça-as de modo irregular, o efeito desejado é esta irregularidade. Frite a cebola, no teflon é bom, até começar a corar e misture a castanha, deixe ficar tudo escuro e oleoso. Despeje no molho rose. Misture o queijo no final. Sirva com arroz branco, discreto no tempero e hambúrgueres de carne sabor picanha, se não tiver serve uns bifes de picanha na chapa mesmo, fazer o que? Pronto! Vinho branco vai bem, o tinto perderia o encanto e a água de coco ganha um especial sabor quando ingerida com esta receita.
O que tem a ver?  Procure quando concluir a leitura do texto, ou será só porque quis guardar essa invenção de sábado no almoço?

Vou viajar para um passado longínquo para buscar mais respostas (ou seriam mais perguntas?).

Antes do Deus do antigo testamento ser Oni-tudo, ele era só o Deus da montanha. No período lá perto de 1300 AC, quando falava diretamente com Moisés, morava no alto do monte Sinai. Por volta de 597 AC, no tempo do exílio para Babilônia por Nabucodonosor, que a ideia de onipresente passou a ser difundida, de forma a manter a fé Judaica mesmo longe da casa de seu Deus, então os salmos que contemplam Deus das alturas vem primeiramente da visão do Deus da montanha.

Quando eu tinha entre 6 e 8 meses, minha primeira lembrança consciente deste mundo, Eu num berço colocado na área adjacente a cozinha da casa de meus avós maternos e segurando na guarda do berço. Recebia gracinhas e carinhos do meu avô Antônio, com a barba espinhuda que me fazia cócegas. Lembro-me de que éramos dois bobos encantados um com o outro, rindo sem parar, até que alguém passou e disse: - “encheu a fralda de novo?”, só podia ser minha avó Emília, que foi criada e sempre criou os filhos para verem algo negativo em tudo, acho que um jeito de sobreviver diante da miséria que abatia a grande maioria dos imigrantes italianos do começo do século XX.
Desci imediatamente da guarda e me lembro de uma profunda tristeza que me levou ao choro.

Uns dois anos mais tarde, estava na parte superior da casa que morava, uma laje com um quarto, no fundo da casa de meus avós, aquilo veio a ser uma malharia, mas não me lembro quando isso foi. Eu tomava sol e era entre julho e agosto, pois ventava frio a pesar do sol forte. Pressenti a formação de um redemoinho de vento, daqueles que minha avó dizia serem a origem dos sacis. Não tive medo como deveria por estar só e ter sido condicionado a ter medo de sacis, além de todas as outras coisas. A formação aconteceu, o frio nas minhas costas, estava eu virado para um canto entre 3, primeiro a poeira subindo depois todos os restos de papéis e folhas espalhados pela laje se juntaram e finalmente o serpentear do ciclone até tudo se dispersar sobre o telhado e ao longe.

Perguntei-me, com essa tenra idade: de onde eu vim, como a pouco eu não conhecia estas pessoas que tem tão pouco a ver comigo? Por que eu não me vou com o vento como tenho vontade? Este é um mistério mesmo pra mim, de onde vieram estas perguntas e o porquê delas, acho que ainda não sei responder plenamente, mas vou tentar.

Um ponto adimensional contendo toda a Sabedoria do Universo se moveu, indo para um outro ponto, usando a Força. Neste momento esta reta era a primeira representação do equilíbrio entre o negativo e positivo, opostos se completando, mas lá no Genesis, e “Deus viu que era bom”, como Ele poderia ver sem se afastar da criação e se deslocando contemplou a Beleza formando um triângulo que passou a determinar um plano. Toda a tridimensionalidade e o Universo ao qual contemos (não ao que somos contidos) surgiram e como se o tempo não existisse para a Sua infinita duração de existência, pode ver toda a obra do começo ao fim, sendo então o Alfa e o Omega!
Acho que a Santíssima Trindade realmente formou o “nós” e todos somos este “nós” e por sermos parte criatura e parte criadores, não vislumbramos a obra toda, não conseguimos pela nossa perene existência, olhar além de um pouco tempo.

Estando andando em uma quadra de ruas, quando chegamos à esquina, podemos ver um caminho enorme para trás e muito pouco a nossa frente, ao dobrarmos a esquina, não vemos mais nada para trás e todo um caminho a nossa frente. O tempo parece ser dividido assim, estamos sempre vendo em parte.
Quando nos elevarmos, veremos a quadra toda, a cidade toda, o planeta todo, a criação toda, indo com o vento, sentindo o sopro divino a nos embalar e transportar.

Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo o cuidado
Meu amor