Mais memórias...
Eu tinha uns 7 , meu Pai trabalhava viajando, minha tia Lau havia se
separado, mas como de muitas vezes outras, nunca sabíamos até quando.
Meu primo Fábio estava com a gente, ele tinha 4 e o ‘Pai” só fazia
questão dele.
O Risco era grande, mas minha mãe sempre se arriscou pelos outros.
Aí, o canalha apareceu e estava rondando a casa, minha mãe me designou:
- corre na sua avó e chama ajuda, to com medo que ele leve o garoto.
Nove e pouco da noite, eu estava como sempre molambento, com um short
largo, uma camisa de manga comprida de dormir, de chinelo havaiana e olha que fazia
muito frio!
A casa dos meus avós ficava há uns 3,5 km e pra fazer aquele caminho
desgraçado até em casa eu sempre me cansava, mas era por uma causa justa, um
mal feitor, uma vítima, uma família pra proteger.
Corri, corri, meus pés doíam, o ar gelado me queimava os pulmões,
cheguei e demorou alguns longos segundos pra eu poder por pra fora a mensagem.
Minha Tia Neusa, tomou a postura de homem da casa e me pegou pela mão e lá
fomos correr de novo. No meio do caminho ficava a estrada do oratório, minha
tia parou uma viatura da polícia e tudo se resolveu. Aquele dia eu correria até
a morte!
Onze anos depois estava eu, em Nobres no Mato Grosso, trabalhando de
topógrafo na construção de uma fábrica de cimento, pela Montcalm do Jabaquara.
Pais separados, sem conseguir fazer a faculdade que era meu caminho certo,
pelas sempre excelentes recomendações na escola. Tímido, inseguro de muitas
coisas e muito seguro de outras. Ficava numa casa, espécie de república , com
todos os encarregados da obra. No meu quarto ficava um cara fantástico, o Cesar
Caetano da Cruz. Religioso, da renovação carismática, orava em línguas, tinha
dom da oratória, quanta coisa. Estávamos num final de tarde conversando sobre
coisas do mundo e dos céus quando um dos encarregados entrou quarto adentro
gritando!
Um parêntese aí: no “trecho” como se diz, as pessoas são conhecidas
pelos seus feitos mais esdrúxulos e este sujeito, que sinceramente o nome me
foi apagado da mente, vou chamar de Xerxes, ele era conhecido, por junto com seu
cunhado “João Botinha”, ter matado um bandido onde moravam.
Xerxes estava bêbado e gritava algo sobre uma roupa caída no banheiro e
os palavrões foram ao mais baixo nível. O Cesar nem se moveu, mas eu me
levantei, como se num movimento de defesa, todo mundo abafou e a coisa parou
pro ali e eu sem nem entender o que acontecia.
No outro dia na perua indo pra obra, um silêncio, só quebrado por
algumas risadinhas discretas.
Aquele dia foi sombrio, eu fiquei introspectivo, me senti encurralado,
vivendo numa casa com algum monstro que me punha medo. O Xerxes precisou dos
meus serviços de topógrafo e eu diferente das vezes que me pediam algo fora da
minha programação, cumpri a programação e só no final do dia determinei os
eixos de montagem que ele precisava, sem muita conversa, sem contato visual. Na
volta pra casa, o pessoal já estava mais solto e algumas brincadeiras, do tipo,
hoje você vai lavar a cueca dele direito, ocorreram.
Não descontraí, muito pelo contrario, me tencionei e me fechei mais,
aquela noite foi difícil, no outro dia eu estava no limite da tolerância com a
minha passividade.
Voltávamos no final de mais um dia de trabalho e o Xerxes, num certo
ponto do caminho, pediu pra parar a perua e foi pro “Umuarama” nome do bar da
região. Eu tava no fundo da perua e completamente tomado de um sentimento de
insatisfação, logo que a perua começou a andar, pedi pra parar que eu ia
descer. Desci e andei muito rápido, atrás daquele cara.
Alcancei ele quando ele
entrava no bar, na verdade uma espécie de lanchonete, mercearia e discoteca.
Não sabia o que ia dizer, mas ia. Peguei no ombro dele e o puxei, olhei direto
nos olhos vermelhos daquele sujeito rústico. Naquele momento ele poderia me
matar, mas a criança com os pulmões ardendo daquela corrida por uma causa justa
não ia recuar. Falei uma coisa que nem foi muito impactante, eu não tinha tanto
pra dizer, mas saiu:”vai encher a cara de novo pra perturbar quem não te fez
nada?”
O Cara perdeu o chão, com uma voz baixa e tremula me pediu mil desculpas
e disse um monte de coisas bobas sobre como eu não merecia o que ele falou. Me
pagou um leite gelado, que incrível, ele sabia o que eu tomava, mas foi embora
antes que eu terminasse. Nos quatro meses que continuei na obra este cara nunca
mais bebeu na minha frente e quando eu chegava e ele estava bebendo ele ia
embora na hora.
O pessoal me contou depois, que foi um furdunço quando eu desci da
perua pra ir atrás do Xerxes, mas o Cesar disse pro pessoal deixar, que nada de
mal podia acontecer comigo.
Pra fechar, uns cinco meses após meu retorno à São Paulo, estava eu trabalhando
na Melhoramentos em Caieiras, já tinha passado no vestibular e estava prestes a
sair da empresa pra ficar desempregado e nem saber como pagar a mensalidade.
Quem eu encontro? Um cara fortão, com uma bota que vinha até o joelho.
Era encarregado de montagem de tubulação e eu precisava nivelar uns “patinhos”
(suportes de tubulação de vapor) pra ele, só que faltaram peças e o pessoal
dele foi buscar. Ficamos sozinhos e ele puxou assunto:
-você trabalhou em Nobres né? Então conheceu meu cunhado, o Xerxes?
Ele sentado e eu de pé olhei pra baixo e disse:
- Tive uns problemas com ele mas resolvi todos!!
O João Botinha ficou completamente sem jeito, abaixou a cabeça e mudou
de assunto! Que moleque atrevido não?
Esta criança ainda está dentro de mim e ri exageradamente quando feliz
e chora copiosamente quando sozinha. Queria poder fisicamente voltar e abraça-la
e dizer o quanto é especial, o quanto pode ser feliz. Dizer pra não perder o
tempo escondido, com medo, sozinho.


