segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Fortaleza



Mais memórias...

Eu tinha uns 7 , meu Pai trabalhava viajando, minha tia Lau havia se separado, mas como de muitas vezes outras, nunca sabíamos até quando.

Meu primo Fábio estava com a gente, ele tinha 4 e o ‘Pai” só fazia questão dele.
O Risco era grande, mas minha mãe sempre se arriscou pelos outros.

Aí, o canalha apareceu e estava rondando a casa, minha mãe me designou:
- corre na sua avó e chama ajuda, to com medo que ele leve o garoto.
Nove e pouco da noite, eu estava como sempre molambento, com um short largo, uma camisa de manga comprida de dormir, de chinelo havaiana e olha que fazia muito frio!

A casa dos meus avós ficava há uns 3,5 km e pra fazer aquele caminho desgraçado até em casa eu sempre me cansava, mas era por uma causa justa, um mal feitor, uma vítima, uma família pra proteger.

Corri, corri, meus pés doíam, o ar gelado me queimava os pulmões, cheguei e demorou alguns longos segundos pra eu poder por pra fora a mensagem. Minha Tia Neusa, tomou a postura de homem da casa e me pegou pela mão e lá fomos correr de novo. No meio do caminho ficava a estrada do oratório, minha tia parou uma viatura da polícia e tudo se resolveu. Aquele dia eu correria até a morte!

Onze anos depois estava eu, em Nobres no Mato Grosso, trabalhando de topógrafo na construção de uma fábrica de cimento, pela Montcalm do Jabaquara. Pais separados, sem conseguir fazer a faculdade que era meu caminho certo, pelas sempre excelentes recomendações na escola. Tímido, inseguro de muitas coisas e muito seguro de outras. Ficava numa casa, espécie de república , com todos os encarregados da obra. No meu quarto ficava um cara fantástico, o Cesar Caetano da Cruz. Religioso, da renovação carismática, orava em línguas, tinha dom da oratória, quanta coisa. Estávamos num final de tarde conversando sobre coisas do mundo e dos céus quando um dos encarregados entrou quarto adentro gritando!

Um parêntese aí: no “trecho” como se diz, as pessoas são conhecidas pelos seus feitos mais esdrúxulos e este sujeito, que sinceramente o nome me foi apagado da mente, vou chamar de Xerxes, ele era conhecido, por junto com seu cunhado “João Botinha”, ter matado um bandido onde moravam.

Xerxes estava bêbado e gritava algo sobre uma roupa caída no banheiro e os palavrões foram ao mais baixo nível. O Cesar nem se moveu, mas eu me levantei, como se num movimento de defesa, todo mundo abafou e a coisa parou pro ali e eu sem nem entender o que acontecia.

No outro dia na perua indo pra obra, um silêncio, só quebrado por algumas risadinhas discretas.
Aquele dia foi sombrio, eu fiquei introspectivo, me senti encurralado, vivendo numa casa com algum monstro que me punha medo. O Xerxes precisou dos meus serviços de topógrafo e eu diferente das vezes que me pediam algo fora da minha programação, cumpri a programação e só no final do dia determinei os eixos de montagem que ele precisava, sem muita conversa, sem contato visual. Na volta pra casa, o pessoal já estava mais solto e algumas brincadeiras, do tipo, hoje você vai lavar a cueca dele direito, ocorreram.

Não descontraí, muito pelo contrario, me tencionei e me fechei mais, aquela noite foi difícil, no outro dia eu estava no limite da tolerância com a minha passividade.

Voltávamos no final de mais um dia de trabalho e o Xerxes, num certo ponto do caminho, pediu pra parar a perua e foi pro “Umuarama” nome do bar da região. Eu tava no fundo da perua e completamente tomado de um sentimento de insatisfação, logo que a perua começou a andar, pedi pra parar que eu ia descer. Desci e andei muito rápido, atrás daquele cara. 

Alcancei ele quando ele entrava no bar, na verdade uma espécie de lanchonete, mercearia e discoteca. Não sabia o que ia dizer, mas ia. Peguei no ombro dele e o puxei, olhei direto nos olhos vermelhos daquele sujeito rústico. Naquele momento ele poderia me matar, mas a criança com os pulmões ardendo daquela corrida por uma causa justa não ia recuar. Falei uma coisa que nem foi muito impactante, eu não tinha tanto pra dizer, mas saiu:”vai encher a cara de novo pra perturbar quem não te fez nada?” 

O Cara perdeu o chão, com uma voz baixa e tremula me pediu mil desculpas e disse um monte de coisas bobas sobre como eu não merecia o que ele falou. Me pagou um leite gelado, que incrível, ele sabia o que eu tomava, mas foi embora antes que eu terminasse. Nos quatro meses que continuei na obra este cara nunca mais bebeu na minha frente e quando eu chegava e ele estava bebendo ele ia embora na hora.

O pessoal me contou depois, que foi um furdunço quando eu desci da perua pra ir atrás do Xerxes, mas o Cesar disse pro pessoal deixar, que nada de mal podia acontecer comigo.
Pra fechar, uns cinco meses após meu retorno à São Paulo, estava eu trabalhando na Melhoramentos em Caieiras, já tinha passado no vestibular e estava prestes a sair da empresa pra ficar desempregado e nem saber como pagar a mensalidade.

Quem eu encontro? Um cara fortão, com uma bota que vinha até o joelho. Era encarregado de montagem de tubulação e eu precisava nivelar uns “patinhos” (suportes de tubulação de vapor) pra ele, só que faltaram peças e o pessoal dele foi buscar. Ficamos sozinhos e ele puxou assunto:
-você trabalhou em Nobres né? Então conheceu meu cunhado, o Xerxes?
Ele sentado e eu de pé olhei pra baixo e disse:

- Tive uns problemas com ele mas resolvi todos!!

O João Botinha ficou completamente sem jeito, abaixou a cabeça e mudou de assunto! Que moleque atrevido não?

Esta criança ainda está dentro de mim e ri exageradamente quando feliz e chora copiosamente quando sozinha. Queria poder fisicamente voltar e abraça-la e dizer o quanto é especial, o quanto pode ser feliz. Dizer pra não perder o tempo escondido, com medo, sozinho.

  

Um comentário:

  1. Sou tímido, falo o necessário e quando necessário. Na escola quando criança era pior ainda, nunca fui um dos destaques da sala na educação física, um gol ou uma cesta eram raridades. Um dia, não me lembro bem mais no ensino fundamental, um certo valentão que se destacava pelas sua brincadeiras sem graças em uma fila de alunos caminhava dando um tapinha da cabeças dos estudantes. Quando chegou à minha vez eu segurei sua mão e agarrei no pescoço, bom logicamente ele agarrou no meu, não sem quem tinha mais medo, se era eu de apertar seu pescoço ou ele o meu. Por fim não me lembro ao certo, mas fomos separados.
    Ele pegou no meu pé durante uma semana, acho que ele estava tentando defender suas reputação. Bom depois ele mudou completamente comigo, nunca mais pegou no pé de ninguém, tentava puxar assunto cmg e por final nos tornamos amigos, até trabalhos escolares fizemos juntos.
    As vezes esses valentões só precisam de um tapa.

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