Melhor mesmo é tentar arrumar de dentro pra fora, afinal, somos feitos pra nos julgar, não é mesmo? Quem melhor pra conhecer nossas limitações defeitos e os porquês?
Quem melhor, quem mais complacente pra nos absolver, qual melhor juiz pra isso?
Nós mesmos. Não somos? Então vou continuar sendo meu melhor intérprete e passar para uma nova historinha.
Ia-se Janeiro de 1980, mudei pra Jundiaí no finalzinho de Dezembro de 1979. Estava então com 14 e a melhor diversão era jogar bola freneticamente, de manhã à tarde, de sol-a-sol, eu estava embalado por 77 e 79, Palhinha e Sócrates, tempos bons aqueles do Corinthians Campeão Paulista depois de tanto tempo, aliás, como bom é qualquer outro tempo, exceto o presente que nunca valorizamos o suficiente e depois nos lastimamos.
Meu primo-irmão Vanderley, dois anos mais novo e Eu, inseparáveis, estávamos no bosquinho do Bonfiglioli, tomando água numa fonte, no final de uma tarde, depois de muito futebol. Lembro-me que Jundiaí era aquela cidadezinha calma, sem prédios, o único era o Mirante da Vila Arens. Víamos o horizonte de quase qualquer lugar, ainda mais do bosquinho que ficava no alto. Não me lembro bem de onde, mas avistamos umas pedras enormes encravadas num morro (agora posso identificá-las, ficavam na marginal esquerda da Anhanguera, vindo de São Paulo, bem do ladinho do agora residencial Anchieta, que aliás fica colado ao Campus da Faculdade de mesmo nome).
Provavelmente a identificação de que era um lugar bonito a se conhecer foi minha e a disposição de ir até lá foi do meu primo, mas isso não importa, combinamos e no outro dia bem cedinho ele passou em casa e saímos, sem nenhum preparo, para uma das mais excitantes aventuras que teríamos juntos.
Estávamos os dois de kichute, nada estranho, pois era uma época em que todos já tinham o dito calçado, mas pouco tempo antes aquilo era luxo, e claro, não tínhamos, então eu tinha que escrever isso!
Fomos em direção ao morro, sem nos importarmos com as dificuldades do terreno, fomos mato adentro cercas afora, às vezes até ignorando que logo do lado tinha uma possível via mais fácil. Rompemos o primeiro grande morro a nossa frente e chegamos numa barraca de frutas, margeando a Anhanguera, hoje aquilo é a confluência da Nove de Julho que leva a rodoviária nova de Jundiaí. Estávamos diante de uma rodovia imponente e atravessá-la era por si só uma aventura. Já do outro lado, nos deparamos com uma vegetação espinhosa e tivemos que transpor uma cerca. A subida era bem acentuada e os picões eram tantos que chegavam a machucar as pernas, lembro-me de parar várias vezes para arrancá-los, foi suada aquela subida. Enfim chegamos às pedras que eram nosso objetivo, foi muito gratificante, lembro que começamos a subir em algumas, aquelas com formatos que mais chamavam a atenção, foram exploradas, em uma delas, com uma fenda no meio, tentemos até escalar pondo um pé em cada face e depois desistimos. Uma em que só meu primo chegou ao topo, porque eu, por ser maior, tive meus ombros usados como base para a subida. Olha o que lembrei, uma das pedras parecia o Pato Donald!
Legal isso tudo, era perto da hora do almoço e parecia que tínhamos terminado a aventura, quando o Vanderley cismou que estava com sede. Diacho viu! Para que tomar água num lugar hostil daqueles? Fazer o que né? Achar água pro moleque!
Nisso, andamos muito tempo por um lugar que não faço ideia hoje de onde seja, mas pegamos uma baixada e depois um morro e depois mais baixada, e nem uma viva alma, nem sinal de que houvesse uma fazenda por ali. Num determinado momento, começamos a andar numa rua de terra e parecia que íamos achar gente, não preciso nem dizer que meu senso prático me dizia que se tivéssemos voltado para casa já teríamos chegado.
Bom, esta estrada dava numa cocheira e como éramos garotos da cidade grande, lá de São Paulo, achávamos que existiam torneiras em toda parte que estivessem pessoas, mas na verdade, lá não existiam pessoas, só alguns cavalos, aliás, um cheiro de "cocheira" de cavalo que me fez ficar tonto (coisa de fresquinho da cidade mesmo). Já estava tarde, a fome pegou, estava tão zonzo e aquele moleque desesperado pra tomar água, o cenário era surreal, aquilo era um vale, sombreado e parecia assombrado, tive calafrios ao meio-dia.
Quando estávamos no meio do caminho para o nada eu percebi o quanto estávamos perdidos e falei pro meu primo pra voltarmos e ele parece que percebeu a gravidade da situação e concordou, quando demos meia volta, nos deparamos com uma coisa que não vou mais esquecer, numa das rampas laterais da estrada em que estávamos, havia algumas centenas de pássaros negros, na verdade urubus!
Eles estavam todos parados, tomando sol sei lá, mas estavam na altura de nossas cabeças e entre eles e nós havia um pequeno vale. Olhando melhor dava pra ver enormes urubus, nunca os tinha visto tão de perto e que engraçado, uma quantidade enorme de passarinhos fofinhos e branquinhos, filhotes é claro! De novo, o espírito de porco, quer dizer, aventureiro do meu primo falou mais alto.
-Vamos chegar perto pra olhar melhor!
Ai ai ai, fomos nós, descemos o pequeno vale e nos aproximando, tinha uma pequena árvore entroncadinha e chegamos rapidamente até ela, nesta altura os bichinhos estavam acima de nossas cabeças. Eu estava aterrorizado e quando olho de lado, o maquiavélico estava com um galho grande na mão, eu perguntei:
-Pra que isso? E ele respondeu
–Pra proteção.
Imagina o que aconteceu depois, acho que por conta do salseiro daquele galho batendo no chão pra chegarmos até a árvore, os passarinho bronzeados nos viram e o que aconteceu foi impressionante.
Estávamos na cabeceira de uma pista decolagem e pouso de urubus e os camaradas decidiram todos alçar voo ao mesmo tempo!
Foi um frenesi, uns trezentos e cinquenta mil urubus decolando sobre nossas cabeças... e passando rasantes, dava pra escutar aquele som de milhares de asas, como no filme do Hitchcock, nunca pensei que aquele bicho fosse tão grande e assustador.
Neste momento, ou em algum outro, logo após este e antes de entender tudo, estávamos correndo desesperadamente, subindo o morro numa direção obliqua ao aeroporto das grandes aves do céu.
Tinha uma cerca de arame farpado que por algum motivo que desconheço até hoje, o Vanderley transpôs facilmente enquanto eu me embananei todo pra encontrar como passar, nem sei se foi por cima, pelo lado ou através dela!
Continuamos a correr e aquele caminho que pareceu demorar horas na vinda, na volta fizemos em minutos e aquela nuvem sobre nós. Acho que a potencial ameaça que éramos para os filhotes fez com que aquelas aves nos acompanhassem até terem certeza da segurança da prole.
Uns dez minutos depois e sem fôlego nenhum, paramos pra respirar e percebemos que os urubus estavam altos de mais para serem ameaça para nós.
Continuamos então o caminho de volta, saímos muito longe do caminho mais curto, rindo do nosso sufoco, ninguém tinha mais fome ou sede, acho que só chegamos em casa lá pelas 4 horas da tarde, ralados e suados, mas com uma história que agora escrita, ficará pra sempre!
Anos se passaram e só uma coisa me vem à mente, que como diz o Raul, “o hoje é apenas um furo no futuro onde o passado começa a jorrar”.
Quando eu era apenas uma criança com a idade de meu filho, pouco mais (três anos), ficava pensando, quando via um redemoinho de papéis, que o vento fazia na rua (e que minha avó dizia que eram sacis), onde eu estava antes de estar aqui? Por que eu tenho saudades de alguma coisa que não sei o que é?
Talvez e só talvez, fosse um furo no futuro e eu estava sentindo o que iria sentir muito tempo depois e muitas outras vezes.
Temos tão poucas coisas que marcam para valer a memória e fazem a gente sentir que é daqui. Por que será que insistimos em perder tempo em coisas e situações que nunca nos marcarão? Será que muitas outras vezes, deixamos pra lá coisas tão importantes e que de fato nos marcariam se fossemos ver aquelas pedras bonitas tão lá no alto?
Por isso que devo muito a este meu primo-irmão que ficou naquele moleque travesso do passado. Porque aprendi que o equilíbrio só serve se estivermos em movimento. Andar de bicicleta só acontece quando se põe em movimento e se adquiri o equilíbrio. Parado no pezinho não é andar de bicicleta e equilíbrio sem risco da corda bamba, não é equilíbrio!

