Olhei no
espelho quando fui fazer a barba e vi uma protuberância avermelhada na
sobrancelha direita. Uma espinha interna. Será que um dia me livro desta
adolescência eterna? Sabe o que significa isso? É hora de escrever. Afinal, meu
filho está saindo das fraldas, já, e não tenho tempo a perder.
Era início de 1980, começava a oitava
série, tinha vindo da sétima “B”, classe dos menos privilegiados mentalmente ou
dos alienígenas, como era meu caso, vindo de São Paulo. Uma classe bem
divertida e maluca, que na junção com a sétima “A”, classe dos fresquinhos, deu
origem à “Oitava Única”. Jogava na seleção da sétima “B” e fui o primeiro a
marcar um gol oficial na quadra da Escola Municipal de Primeiro Grau Antonino
Messina, no Bonfiglioli, Jundiaí, um ano antes. Na educação física, a nossa
classe, “Oitava Única”, era mesclada com a sexta série dos repetentes, sexta
“B”. Muitos alunos eram da nossa idade ou mais velhos - então, estava tudo bem.
Em momentos de descontração, depois da educação física, jogávamos vôlei, um
esporte tranquilo, sem contato físico. Sem contato Físico? Fala isso para o
Batata. Era um sujeito que não parava de se mexer, com olhar vidrado; toda vez
que a bola caía no chão da quadra, ele passava por baixo da rede e chutava o
Xáxa (Nasser), um libanês que tinha um biótipo engraçadinho, meio gordinho, um
pouco lembrando imigrantes da Mongólia. Essa agressividade do Batata, seguida
da passividade do Xáxa, incomodava-me. Apesar dos dois serem de outra sala,
aquele justiceiro mascarado que vivia dentro de mim me cutucava para fazer algo
e fiz. Bronqueei com o desalmado para ele parar de chutar o garoto. Imagina a
reação do Batata?
– Vou bater em você, então, me espera que
vou te pegar na saída!
Olha a encrenca, vocês assistiram a aquele
filme em que o “nerdinho” arrumou confusão com o marginal da escola e o
grandalhão disse que ia destroçar o frangote na saída? Então, eu era o frangote
a ser destroçado. Comecei a me borrar de medo ali mesmo e fui rapidamente para
casa. Naquele dia, na entrada da escola, cheguei em cima da hora e me misturei
com a molecada para não ser visto; também não saí para o recreio. Como eu era
covarde... (ou prudente?). Este ritual de amedrontamento fluiu por mais de uma
semana, sempre que o Batata me via, vinha em minha direção e eu disfarçava me
escondendo. Meus amigos de classe nunca souberam - eu tinha era mais vergonha
de demonstrar medo. O medo, mesmo, ficava em segundo plano diante disso.
Quis o destino que o futebol me redimisse.
Estávamos disputando o interclasses, nosso time, composto pelos jogadores de
sempre, estava inflado com os “jogadores de fim de semana”, que queriam sua
oportunidade de participar da festa. Estes mostraram grande habilidade e deram
show para as menininhas nos primeiros jogos, que foram bem fáceis, pois
disputávamos contra crianças menores. Enfim, chegou a grande final, numa
quinta-feira. Eu estava em baixa, pois só aparecia, mesmo, quando o bicho
pegava. Já estava desanimado pela situação com o Batata, encontrava-me num
momento ruim. Os adversários eram os meninos grandinhos da sexta “B” - B de
Batata? O futebol, principalmente o de
salão, era uma questão de família: meu pai tinha sido duas vezes artilheiro do
Campeonato Metropolitano de São Paulo e tinha um chute de quebrar dedos. Eu
queria fazer valer o sangue, mas estava longe de ser o suprassumo do esporte,
principalmente pela característica de ser inconstante quando o jogo não era
para valer. Naquele dia, estávamos sem o Donizete, artilheiro do time, e o
Pipoca, nosso goleiro titular; faltou, para variar, o Mi; o segundo goleiro
também foi viajar no feriado prolongado e tivemos que improvisar o Aurélio no
gol. Os grandes jogadores, sensações das meninas não começaram jogando, o
carregador de pianos aqui iniciou a partida e só vou me lembrar de um jogador
da nossa linha: o Macalé (Divanir), malabarista da bola, mas que tinha certo
preconceito de jogar comigo, talvez porque eu fosse branquinho pobre.
O time adversário vinha atropelando os
concorrentes e havia, além do Batata, o goleiro de cujo nome não me recordo,
mas era do infanto-juvenil do Guarani de Campinas. Bola em jogo, e o Aurélio
deu sinais de nervosismo, na primeira bola ao gol, errou o chute e a “bola
pesada” bateu na trave - ele praticamente caiu sentado sobre ela. Não é
demérito o que conto dele, este meu Amigo, seria o nosso grande “fixo” do
esquadrão Panzer do “Laranja Mecânica” - mas esta é uma outra história. O
primeiro tempo acabou como começou, muito nervosismo, nenhuma jogada brilhante.
Imaginei, na minha solidão do intervalo, “vão me tirar do time”. Para minha
surpresa (minha autoimagem era embaçada mesmo), deixaram-me no time e até houve
uma discussão entre os reservas porque o Roberto queria entrar no meu lugar e
foi barrado.
Segundo tempo rolando e logo no comecinho
fui puxar um contra-ataque da nossa esquerda: vi o Macalé no meio da quadra e
dei um calcanhar para ganhar tempo, e não é que o desaforado ficou bravo que a
bola não chegou redonda e deu com as mãos para cima, reclamando e desistindo da
jogada? Corri para consertar a besteira, o defensor, que cortou a bola em
direção ao seu próprio gol, não percebeu a minha atitude e foi só protegê-la. O
goleiro, até aquele momento do campeonato, inviolável, percebeu o meu
deslocamento e saiu em direção à bola - dei tudo, esbarrando com o defensor e,
naquele milímetro antes do pé do goleiro, dei um biquinho e marquei no canto
direito da minha vista, um dos mais emocionantes gols da minha carreira. Voltei
correndo para o meio da quadra, dando aquele pulo e o soco no ar, como se fosse
o Rei. A comemoração foi muito vibrante e todos, inclusive do banco de
reservas, entraram em quadra pra comemorar.
O jogo não tinha acabado e, então, veio
minha redenção definitiva. Agora só jogava o time deles e o Batata começou a
arriscar de onde pegava a bola. Tornei-me uma barreira, dava carrinho de um
lado da quadra, corria para o outro, dava carrinho novamente, mandava a bola
para fora - lembro-me da expressão de desolado do Batata, que não conseguiu que
nenhum de seus chutes passasse da minha marcação. Ganhamos, ganhei e nunca mais
me escondi dele, pelo contrário, ganhei seu respeito e descobri que o sangue
dos Iuras corria em minhas veias futebolísticas (para registrar, meu avô
Estevão foi médio-volante na Portuguesa-Santista).
Não há outra lição nesse relato, foi só uma
forma de relembrar enquanto a memória está viva. Talvez o maior legado deste
jogo, vendo agora, tenha sido a reconstrução do que eu via em mim mesmo. Na
época, isso não aconteceu, senti-me, logo após a partida, esquecido. Ninguém
para comemorar, como se aquela partida não tivesse existido. Nenhum malfeitor
para ter medo. Só as paixões platônicas também pela “gordinha pesada” e os
sonhos com Urubus “dementadores”.
Assim como as criaturas do Harry Poter, as
lembranças boas conseguem nos livrar dos seres espectrais. Vou ficar, então,
com o salto e o soco no ar, com o alívio de ter tomado a decisão certa e não
ter desistido dos meus sonhos!
Rita Lee pra vocês:
“Pegar fogo nunca foi atração de circo,
Mas de qualquer maneira pode ser um caloroso espetáculo”
“Mas meus nervos são de aço
Pra pedir silêncio eu berro
Pra fazer barulho eu mesma faço
ou não!..."

"Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes" Isaac Newton.
ResponderExcluirObrigado pelo comentário, principalmente vindo de alguém que conhece o jogo! Sir Isaac Newton sempre se apoiou em ombros de Gigantes,pois estava cercado deles. Vamos nos cercar de Gigantes pra podermos ver além!
ResponderExcluirClasse dos menos privilegiados mentalmente ou dos alienígenas, rssss. Adorei o texto, muito divertido e inspirador.
ResponderExcluir