Quando eu tinha uns 11, vinha pra Jundiaí passar férias, meu primo
Vanderley, passava as férias com a mãe e a diversão tava feita se a gente
estivesse juntos. Éramos os irmãos que não tínhamos um pro outro.
Aí a cadela da minha tia pariu (rs.) e foi um perereco. Cinco
filhotinhos se não me falha a memória, e minha tia nos incumbiu de dar fim nos
bichinhos
-deixem bem longe perto de alguma casa!
Fomos eu, meu primo e uma molecada da rua, doidos por farra.
Atravessamos a estrada velha de campinas, indo da Hortolânda em direção a onde
é agora a prefeitura nova e todos animados com a aventura. Enveredamos pela
região que margina o rio Jundiaí. Encontramos uma nascente com água e os
garotos batutas, resolveram brincar com os filhotinhos. Brincadeira bem
saudável, afundavam os bichinhos e depois tiravam da água, coisa pouca e as
palavras de ordem eram, vamos afogar, aí
nem precisamos achar uma casa pra eles
.
Aí vem uma pausa na história, eu era o garoto da cidade, ingênuo, sem
boca pra nada, nem palavrão falava, tímido, medroso até, vivendo no meu mundo
de faz de conta que nunca se me encaixava na realidade da vida, sempre
super-herói, sempre imbatível. Era na verdade alguém desinteressante pros
garotos da minha idade
.
Bom, voltando aos auaus, aquilo começou a me gelar a barriga e eu me
sentia sem ar, cada vez que um pobrezinho era mergulhado. Pro meu assombro, meu
primo gostou da brincadeira e tinha um cachorrinho na mão, ele afundava na água
e esperava borbulhar até parar, aí tirava da água, pra ele tomar fôlego e de
novo pra água. Aquela aflição, agonia, me tomou. Sem saber como agir, era o
único que não ria da situação e como todo bom super-herói de mentira, estava
procurando uma cabine telefônica pra me trocar, esperando uma palavra mágica
pra me transformar, sei lá o que eu esperei tanto, mas aí aconteceu!
Parei com aquilo, comecei falando firme com meu primo, que de imediato
me ignorou, mas não parei por aí, subi a voz como nunca fazia e aí sim, me
ouviram. Não lembro minhas palavras, mas assim como voltaria a acontecer muitas
vezes depois na minha vida, elas foram contundentes e atingiram seu justo
objetivo. Pararam imediatamente com aquela coisa sem propósito e acabamos por
deixar os filhotinhos próximos a uma casa.
Lembrei mesmo daquele outro super-herói trash da minha tenra infância,
o Incrível Hulk, era cinza, mas era um cinza claro, diferente do capitão
América, que tinha cinzas mais radiantes, ou do homem de ferro, que tinha um
cinza escuro..rs. TV Preto e Branco era assim, até o Garibaldo era cinza.
Lembro que ele ficava nervoso e se transformava, todos sabem da
história, ele depois de destruir muitas coisas acabava ajudando alguém, era
perseguido pelo exercito ou polícia e tinha que se refugiar no topo de alguma
montanha. Lembro as palavras da criatura sozinha e isolada “ Ninguém ama o
Hulk, todos querem matar o Hulk”
Eu ficava triste, sempre tive vontade de ser forte pra burro, mas não
era, era magro e fraquinho, não botava medo em ninguém, aí me identificava com
o Hulk, na solidão.
Anos mais tarde, com a série da TV, conheci uma nova história para o
ser verde incompreendido, o Doutro Banner, depois de perder a mulher num
acidente, pesquisa sobre pessoas que tem uma força descomunal quando estão em
situações de perigo e conseguem até virar um carro na mão, para salvar um filho
por exemplo. O Dr. Banner, se sentiu completamente impotente com a morte da
esposa e na pesquisa por despertar esta força nele próprio, que quando precisou
não teve, num acidente de exageradas proporções com raios Gama, passa a ser o
Hulk.
Que ironia esta história, ele já tinha passado do ponto, não traria
mais a esposa de volta e quando ele nada mais podia fazer, agora convivia com
este desajuste de ser excessivamente forte, quando em situações adversas, mas
já era! não dava mais pra trazer o que se foi.
Esta síndrome do Hulk, se posso chamar assim, inventei agora acho, é um
fenômeno que muitas pessoas vivem, se irritam em demasiado com coisas banais. A
origem está numa impotência, em alguma situação no passado, mas estas pessoas
não percebem que situações não se repetem se nós não as trouxermos conosco. Não
abandonam nunca aquela sensação do passado, de impotência, aí a potência vem,
onde é preciso jeito!
Acho, que mesmo eu tendo sido o Incrível Hulk, na minha infância,
consegui de alguma forma, usar a potência nas situações mais difíceis da minha
vida. Ainda não consegui, parar totalmente de usar contra mim mesmo, este
critério furioso. Às vezes me imagino, pesado e sisudo, cinza, porque não, mas
isso ainda vai me deixar.
sonho de Ícaro

Assuntos abordados na postagem: fraquezas, força e solidão.
ResponderExcluirFraqueza é um nome reduzido para “falta de equilíbrio no ego” .. Isso mesmo, existem habilidades que não desenvolvemos ainda, se temos equilíbrio em nosso ego, é possível se livrar das frustrações que aparecem junto da percepção de nossas fraquezas, isso torna o processo desenvolvimento de habilidades mais rápido, e ao invés de eliminar uma fraqueza adquirimos uma força. Uma espécie de troca. Essa troca de fraquezas por força pode levar minutos ou a vida toda. O acúmulo de nossas forças é a única maneira de afogar a solidão, apesar de eu acreditar que a solidão seja uma escolha... Pessoas sentem prazer com solidão ou fazem uso pretensioso desta como forma de vitimização própria.
O Dr. Banner precisa fazer uma pergunta a si mesmo. Fiz uma auto critica e assumi a responsabilidade por "quem eu sou".. Os acontecimentos passados, e de infância podem influenciar nossas vidas enquanto isso for inconsciente, a partir do momento que os acontecimentos estão em nosso campo de visão, a responsabilidade é do Dr. Banner.
“”Posso não ser capaz de mudar o mundo a minha volta, mas posso mudar o que vejo dentro de mim””””.