segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Poltergeist!


Minhas memórias não são lineares, às vezes me vem em uma ordem que não me faz sentido, esta, aconteceu faz uns dez anos...
Noite de sexta pra sábado, morávamos eu e a Cristiane em um apartamento no Conjunto São Francisco, na Luiz Latorre. Fui deitar mais tarde, estava assistindo alguma coisa que não me lembro, quando me deitei, quase como sempre, a tempestade de ideias e o resumo do dia começaram a pipocar, sem controle, pronunciando que o sono demoraria muito a vir.
Coisa absurda, em poucos minutos, escutei a escada de alumínio que ficava na lavanderia cair.
Pensei, deve ter ficado encostada em algo e o vento a derrubou. Mas que coisa, imediatamente ouvi de novo a escada de alumínio cair. Confuso, perguntei se a Cris teria ouvido e ela acordou, nem me dando muita atenção e disse, a escada deve ter caído e eu meio assustado, mas sem perder o meu humor, muitas vezes negro, perguntei em retórica, quantas vezes a escada pode cair? 

Mas antes de achar graça de mim mesmo, outros sons romperam a acontecer, primeiro, as portas do guarda-roupa do quarto de trocar começaram a dar sinais de vida, como se alguém o torcesse, ou tentasse abrir suas portas, em seguida um som vindo do banheiro como se fosse da tampa do vazo, neste momento minha cabeça sem entender, começou a conceber o impossível, corri e tranquei a porta do quarto com a chave. Imaginei primeiro um ladrão, mas esquisito, 15ª andar, como alguém teria entrado logo em seguida ao me deitar, não ouvi barulho na porta de entrada, depois pensei ser um rato saído do esgoto, mas como, o barulho em cômodos diferentes, muito rápido e muito grande pra ser um rato, a esta altura o quarto do computador já tinha sido atacado e coisas voaram pelo chão e muitas. Já estava concebendo um poltergeist. Abaixei-me para olhar por baixo da porta e nada de luzes, nem uma lanterna, como poderia ser um ladrão, olhei pela janela do banheiro e nada de vultos ou luzes, a Cris, não se arriscou a dizer nada e eu comecei a pensar se meu Pai estivesse aqui ele faria algo, sempre destemido, o que será que ele faria? Mas sem chance, meu Pai não estava, eu era o homem da casa e os barulhos não paravam, olhei para o mancebo que tínhamos no quarto e removi a parte superior dele, parecia um taco, um galho de árvore, sei lá, mas me armei e no máximo do meu medo, coloque a mão na chave da porta e decidi usar o elemento surpresa, abri com tudo a porta, batendo a mão no interruptor do corredor e gritando como um alucinado “QUEM ESTÁ AÍ”.  Acho que acordei uns dois andares com minha exclamação. Corri pra cima do seja lá o que fosse...

Olhos grandes, muito grandes me fitavam, brilhando na penumbra, pra minha surpresa assustados como os meus... Uma bela e grandiosa coruja me olhava do braço da poltrona do quarto do computador.

A coitadinha entrou pela basculante da cozinha e deu de cara com a escada de alumínio, bateu contra ela e desgovernada derrubou tudo que estava sobre a geladeira e bateu de volta na escada tentando sair por onde entrara desgovernada de novo, voou pelo quarto de vestir e chocou-se contra o guarda-roupa, em seguida voando em diagonal bateu contra o Boxe do banheiro, caiu sobre a tampa do vazo, tentando se recuperar voou de novo em diagonal e achou o quarto do computador, onde derrubou simplesmente tudo que estava sobre o armário.
Um Homem acuado é muito perigoso, vence medos, tira forças de lá de dentro. Hoje perdi o medo do escuro, não penso mais que meu Pai possa me proteger, ainda tenho paúra de baratas, mas com o tempo também isto se vai.

Quando era muito pequeno, sonhava com coisas sempre grandiosas, cresci e acho que muitos destes sonhos aconteceram. O mais difícil foi desvestir a armadura do Homem de Ferro. Um sonho de infância tê-la e não ser atingido por nada. Ela me acompanhou até bem pouco tempo atrás, na verdade ainda a visto, às vezes, mas a proteção que ela me deu, me tornou pesado, as lágrimas que nunca brotaram pra fora, a enferrujaram por dentro, lento e pesado, não conseguia mais carregá-la comigo. 

Sabe, sem ela fui alvejado, era de se esperar, senti primeiro a dor lancinante, a minha visão ficou turva, os joelhos dobraram e senti as pedras sobre os quais repousei no primeiro momento, os sentidos se perderam mais um pouco e meu rosto foi contra o chão, minhas mãos cheias de terra e areia, marcadas de pedriscos, eram minha visão naquele momento. Nada além das minhas mãos, mas agora, o gosto de sangue na boca passou, estou recobrando os sentidos, lembrando o que aprendi fazendo escalada, primeiro segurando com as pontas dos dedos, me equilibrando, achando ponto de apoio para uma perna, depois para a perna que fará força e o primeiro passo, só pensando nele, nada mais importa senão o primeiro, e depois nada mais importa além do próximo.

Ainda dói ser alvejado, o ferimento está lá, mas estar livre desta armadura me fez sentir leve, vale tanto a pena, que vou ficar sem por enquanto.

Lembrei-me desta música, a Cris sempre gostou.



3 comentários:

  1. FANTASTICO!!! Talvez o melhor. Concordo que não seja necessária a armadura. A vida com a armadura pode evitar o fracassos, porem com ela, a vida se torna cinza, sem derrotas e talvez algumas vitórias, mas sem experimentar o dom de VIVER E AMAR. """ Só se começa a viver quando se vive para os outros. Albert Einstein""""

    ResponderExcluir
  2. Eu também tenho medo de baratas, mas isto é um segredo, quando aparece uma, eu estufo o peito e tento mostrar que não tenho medo, principalmente quando minha namorada esta perto.
    Eu gostei muito da idéia do Avatar de outro texto com a idéia que em certos momentos da nossa vida estamos controlando nosso Avatar. Você tem a mesma filosófica idéia para a armadura do homem de ferro onde podemos agir sem medo do perigo, pois estamos vestindo a armadura que nos protege de tudo, assim como o Avatar que é só um fantoche. Estas fantasias enchem nossos corações, lembro até hj do dia que acabei de ler o livro Nós, Robôs de Isac Asimov, meu primeiro pensamento entusiasta era estudar muito, ser engenheiro e tornar aqueles robôs reais, para o homem de ferro, a mesma coisa, me lembro que ao sair do cinema estava pensando em formas de tornar aquilo real, voar sem medo, salvar as pessoas ...
    Ótimo texto, vc já tinha me contado esta historia em outra ocasião.

    ResponderExcluir
  3. Puxa Luis, isso não aconteceu no Residencial Anchieta??? Jurava que sim, mas também, 10 anos atras eu era um bebê...
    Acho que eu me lembrava dessa história um pouco mais fantasiosa... rs

    Bjs

    ResponderExcluir