Poderia
definir alguma coisa evanescente, comparando-a como uma coisa que dura tanto
quanto a efervescência de um sal de frutas quando jogado à água, mas isso seria
muito simples pra mim!
A
primeira recordação minha de datas foi quando estava no primeiro ano na escola
Tio Patinhas, na Rua Francisco Fett em São Paulo. Deveria ser um Fevereiro,
lembro-me que no dia anterior o dia estava nublado e naquele dia estava ensolarado.
Comecei escrevendo o cabeçalho, do lado de um solzinho que tinha acabado de
desenhar, tudo copiando da lousa, que a professora tinha acabado de escrever:
São
Paulo, 23 de Fevereiro de 1972. O dia está ensolarado.
Percebi
que mudava o numero dois do ano e depois daquele dia comecei a me atentar para
o ano corrente e nunca mais deixei de ser escravo do tempo.
Em
1972, foi o ano em que meu Pai trabalhava na Bahia e no fundo de casa, numa
laje inacabada aconteciam os bailinhos que minha Tia Neusa e seus amigos
organizavam lembro-me de nomes, Gigi, Piloto e Dirce, Preto e sua namorada, sei
lá acho que Denise, se minha tia ler isso, ela deve voltar ao passado e me
mandar o nome da namorada do Preto, que, aliás, era muito branco. Lembro-me da
frase na parede BLITZ OF LOVE. Que meu Pai sabiamente e por conhecer um pouco
de alemão me explicou que era a conjunção de uma palavra em alemão com uma em
inglês e que significava algo como batida de amor, ataque de amor, coisa assim.
Agora sei que Blitz significa relâmpago, como querendo dizer algo que chega
muito rápido, avassalador. Tinha luz negra e um encerado preto que deixava o
ambiente escuro e um globo de isopor cheio de espelhinhos quadradinhos. Este
globo ficava no compartimento da direita de quem entrava e logo em baixo
existia um desenho de uma cripta, acho que foi o Piloto que desenhou. Eu olhava
aquelas luzes todas, os reflexos do globo da luz negra e viajava como se
estivesse indo para o espaço sideral, ficou mais que lembranças daquele tempo e
lugar, ficaram sonhos de conquistas.
Depois
de uns anos, lá nesse fundo de casa existiu a oficina do Nardo, filho do Seu
Pedro, dono do bar em frente e que no futuro viria a ser meu padrinho de
crisma. Lá conheci uma coisa que me encantou, a pedra de carbureto.
Um
Gerador de acetileno é um cilindro com uma cesta onde se coloca o carbureto,
que é uma pedra que quando em contato com água, produz o tal gás (CaC2 + 2 H2O
-> C2H2 + Ca(OH)2)
Lembro-me
que as pedras que saíam da cesta do gerador eram extremamente quentes e ainda
exalavam o gás, pela minha curiosidade alguém que não me lembro, pela primeira
vez pegou uma pedra de carbureto e colocando no chão derramou água e ateou
fogo. Foi o máximo, uma pedra fazendo fogo e o que sobrou foi um lodo, um nada,
um pó que por mais que eu quisesse jogar água de novo, não pegava mais fogo.
Não
sabia de onde vinham as pedras, nunca via, só sabia que por mais que tivéssemos
pedras elas sempre acabavam e imaginei se as jazidas dessas pedras um dia
acabariam e não mais conseguiríamos soldar os carros da oficina e ninguém mais
repararia carros no mundo.
Na
minha “mente brilhante” neste momento, comecei a tentar solucionar isso e meus
heróis imaginários passaram a usar uma arma que eu cientista inventei e que
trazia acima do corpo da arma um invólucro de vidro que continha um líquido de
várias cores dependendo da intenção da arma e variava de azul, vermelho ao
incolor. Este líquido rendia tanto que não seria necessário recarregá-lo mesmo
que a batalha fosse muito longa.
Agora sei de onde a ideia saiu, daquelas
máquinas de sorvete americano que tinha no caminho entre minha casa e a dos
meus avós, na estrada do Oratório. Quando o sorvete ia surgindo no bocal
inferior da máquina eu ficava observando o líquido e nunca via o danado baixar,
acho que por isso tinha aquele produto como inextinguível. Não entendia naquela
época que o sabor ia também embora tão rápido porque os espaços na matéria para
este produto eram maiores ainda do que nos outros.
Mas...
Nada
é inextinguível. Até as lembranças vão se indo e o sentimento parece que se vai
com elas. Parece mesmo que alguma coisa fica e não consigo entender onde se
armazena, se a separação entre as memórias e os sentimentos ocorre na mente
física ou se em algum lugar daquilo que chamamos alma existe uma reserva
daquilo que não pode ser só raciocinado.
A
cena de escrever o cabeçalho no caderno em 1972 foi há mais de quarenta anos e
não me lembro do caderno nem das letras materialmente, mas lembro do sentimento
da manhã de sol e da ânsia por conhecer mais. Sabe, continuo tendo esta vontade
de conhecer mais e sentir mais o sol nos meus ombros (sunshine on my sholders!).
Algumas
músicas trazem coisas que não precisam de complemento, tem uma do Biquíni
Cavadão, se chama Descivilização, que diz tanto sobre a perenidade da vida que
vou copiar a estrofe sem querer e necessitar explicar:
Na chuva dos dias, meu nome vai fugir
Escorrer pela terra, até que as plantas o suguem
Aí ele será uma presença inaudível em todo lugar
Como algo tão notório e que, por isso, não precisa se falar
Sol sem brilho, luz sem cor
Escorrer pela terra, até que as plantas o suguem
Aí ele será uma presença inaudível em todo lugar
Como algo tão notório e que, por isso, não precisa se falar
Sol sem brilho, luz sem cor
Descivilização
Porque a vida é passageira; e a morte, o trem.


Feliz Ano Novo, Iuras.
ResponderExcluirAbraços