segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Evanescente



Poderia definir alguma coisa evanescente, comparando-a como uma coisa que dura tanto quanto a efervescência de um sal de frutas quando jogado à água, mas isso seria muito simples pra mim!

A primeira recordação minha de datas foi quando estava no primeiro ano na escola Tio Patinhas, na Rua Francisco Fett em São Paulo. Deveria ser um Fevereiro, lembro-me que no dia anterior o dia estava nublado e naquele dia estava ensolarado. Comecei escrevendo o cabeçalho, do lado de um solzinho que tinha acabado de desenhar, tudo copiando da lousa, que a professora tinha acabado de escrever:

São Paulo, 23 de Fevereiro de 1972. O dia está ensolarado.

Percebi que mudava o numero dois do ano e depois daquele dia comecei a me atentar para o ano corrente e nunca mais deixei de ser escravo do tempo.

Em 1972, foi o ano em que meu Pai trabalhava na Bahia e no fundo de casa, numa laje inacabada aconteciam os bailinhos que minha Tia Neusa e seus amigos organizavam lembro-me de nomes, Gigi, Piloto e Dirce, Preto e sua namorada, sei lá acho que Denise, se minha tia ler isso, ela deve voltar ao passado e me mandar o nome da namorada do Preto, que, aliás, era muito branco. Lembro-me da frase na parede BLITZ OF LOVE. Que meu Pai sabiamente e por conhecer um pouco de alemão me explicou que era a conjunção de uma palavra em alemão com uma em inglês e que significava algo como batida de amor, ataque de amor, coisa assim. Agora sei que Blitz significa relâmpago, como querendo dizer algo que chega muito rápido, avassalador. Tinha luz negra e um encerado preto que deixava o ambiente escuro e um globo de isopor cheio de espelhinhos quadradinhos. Este globo ficava no compartimento da direita de quem entrava e logo em baixo existia um desenho de uma cripta, acho que foi o Piloto que desenhou. Eu olhava aquelas luzes todas, os reflexos do globo da luz negra e viajava como se estivesse indo para o espaço sideral, ficou mais que lembranças daquele tempo e lugar, ficaram sonhos de conquistas.

Depois de uns anos, lá nesse fundo de casa existiu a oficina do Nardo, filho do Seu Pedro, dono do bar em frente e que no futuro viria a ser meu padrinho de crisma. Lá conheci uma coisa que me encantou, a pedra de carbureto.
Um Gerador de acetileno é um cilindro com uma cesta onde se coloca o carbureto, que é uma pedra que quando em contato com água, produz o tal gás (CaC2 + 2 H2O -> C2H2 + Ca(OH)2) 


Lembro-me que as pedras que saíam da cesta do gerador eram extremamente quentes e ainda exalavam o gás, pela minha curiosidade alguém que não me lembro, pela primeira vez pegou uma pedra de carbureto e colocando no chão derramou água e ateou fogo. Foi o máximo, uma pedra fazendo fogo e o que sobrou foi um lodo, um nada, um pó que por mais que eu quisesse jogar água de novo, não pegava mais fogo.
Não sabia de onde vinham as pedras, nunca via, só sabia que por mais que tivéssemos pedras elas sempre acabavam e imaginei se as jazidas dessas pedras um dia acabariam e não mais conseguiríamos soldar os carros da oficina e ninguém mais repararia carros no mundo.
Na minha “mente brilhante” neste momento, comecei a tentar solucionar isso e meus heróis imaginários passaram a usar uma arma que eu cientista inventei e que trazia acima do corpo da arma um invólucro de vidro que continha um líquido de várias cores dependendo da intenção da arma e variava de azul, vermelho ao incolor. Este líquido rendia tanto que não seria necessário recarregá-lo mesmo que a batalha fosse muito longa.
 Agora sei de onde a ideia saiu, daquelas máquinas de sorvete americano que tinha no caminho entre minha casa e a dos meus avós, na estrada do Oratório. Quando o sorvete ia surgindo no bocal inferior da máquina eu ficava observando o líquido e nunca via o danado baixar, acho que por isso tinha aquele produto como inextinguível. Não entendia naquela época que o sabor ia também embora tão rápido porque os espaços na matéria para este produto eram maiores ainda do que nos outros. 


Mas...

Nada é inextinguível. Até as lembranças vão se indo e o sentimento parece que se vai com elas. Parece mesmo que alguma coisa fica e não consigo entender onde se armazena, se a separação entre as memórias e os sentimentos ocorre na mente física ou se em algum lugar daquilo que chamamos alma existe uma reserva daquilo que não pode ser só raciocinado.
A cena de escrever o cabeçalho no caderno em 1972 foi há mais de quarenta anos e não me lembro do caderno nem das letras materialmente, mas lembro do sentimento da manhã de sol e da ânsia por conhecer mais. Sabe, continuo tendo esta vontade de conhecer mais e sentir mais o sol nos meus ombros (sunshine on my sholders!).

Algumas músicas trazem coisas que não precisam de complemento, tem uma do Biquíni Cavadão, se chama Descivilização, que diz tanto sobre a perenidade da vida que vou copiar a estrofe sem querer e necessitar explicar:

Na chuva dos dias, meu nome vai fugir
Escorrer pela terra, até que as plantas o suguem
Aí ele será uma presença inaudível em todo lugar
Como algo tão notório e que, por isso, não precisa se falar
Sol sem brilho, luz sem cor
Descivilização
Porque a vida é passageira; e a morte, o trem.

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