Tirem
as crianças da sala!
Os
de corações fracos, com o calibre das coronárias alterado, não devem prosseguir
deste ponto, revelarei alguns mistérios do post
mortem.
Há
uns poucos anos, já se passariam, talvez, uns três anos da morte de meu Pai,
tive um sonho daqueles que você lembra cada detalhe. Vou descrevê-lo de forma
resumida e em seguida relatarei o que ocorreria na manhã seguinte ao sonho.
Estávamos
em uma casa com muitos andares e numa espécie de sacada eu podia avistar o
horizonte e era vermelho-alaranjado, quase uma mistura de anoitecer com início
de tempestade, quase todos os meus sonhos são neste cenário. Por algum motivo
que não me lembro, comecei a descer uma escada que ficava do lado externo da
casa, talvez esta casa seja a do meu bisavô, que marcou minhas primeiras
lembranças como ser humano, mas isso não importa tanto agora. Descendo o
primeiro lance, a escada me levava agora para um porão, nada assustador, era
grande e bem iluminado, lá estava meu Pai, de capa branca de cientista maluco,
com seus cabelos fartos grisalhos. Mexia em algum artefato, uma mistura de
rádio antigo com mesa de laboratório de química, ele nem se virou pra falar
comigo, estava bem compenetrado e tinha uma lousa com algumas anotações em giz.
Ele me dizia (era pra mim mesmo, porque ele virou o rosto e olhou pra mim como
se me esperasse), não importa que horas você saia, sempre chega as 7:02 e
repetia me mostrando algo que era como uma simulação de caminhos e pontos de
partida, como se eu estivesse lendo a sua mente, naquele momento me eram
claros, mas não sei precisar como eu visualizava as simulações. Repetiram-se
por umas sete vezes (conta de mentiroso?) as simulações e sempre assim, ele
finalizava,
-não importa a hora que você saia, chegará
sempre as 7:02.
Outras
coisas aconteceram neste sonho, mas como isso já foi há uns três anos, não
lembro com tantos detalhes. Acordei, graças a Deus não é? Tomei meu café e
contei a história pra Cris. Como sempre, depois de tantos anos contando sonhos
e com os detalhes ficando na cabeça e confundindo até mesmo quem conta, ficou
por isso.
Quando
fui sair pro trabalho, lembrei-me do estranho 7:02 e parei pra pensar se eu não
estaria sugestionado com o meu horário de sempre, mas percebi que não, naquela
época meu horário de chegada era umas 7:15. Claro que também percebi que
naquele dia eu estava saindo mais cedo de casa.
No
caminho, que demora aproximadamente vinte minutos, durante algumas vezes me
lembrei do sonho e tentei adivinhar onde eu estaria passando naquele horário,
mas sabe como é de manhã, a cabeça pensando mil coisas, o sono preenchendo os
espaços e quando me dei conta, já estava subindo o ultimo trecho para chegar à
fábrica e já eram 7:03, perdi o local exato e fiquei me culpando, teria sido na
ponte, ou no cruzamento, qual teria sido o recado que perdi?
Cheguei
à fábrica, chequei se os vidros estavam fechados, olhei para o relógio do carro
e 7:04, tá bom, só um sonho sem sentido. Quando desliguei a chave e o display
desapareceu da minha frente me veio à cabeça, “o relógio está sempre
adiantado”, imediatamente liguei o celular e..................................................................................................................7:02
Lembro-me
que naquele dia, desviei de caminhões, mudei meu trajeto habitual, estava fora
do meu horário e simplesmente isso não importou, cheguei exatamente no horário
que meu Pai e suas simulações disseram no sonho!
Senti-me
reconfortado, com a visão de algo sobrenatural, nada seria mais impactante na
minha mente do que números, e olha que números em sonhos são coisas raras,
então a melhor maneira de me mandar um recado em que eu acreditasse seria essa.
Ou, foi só coincidência, daquelas 1:1.000.000. Mas a dúvida é o preço da pureza
e é inútil ter certeza!
Vá
lá, esta não foi tão terrível e assustadora assim, principalmente pra você que
está lendo e não pra mim que me arrepiei inteiro na hora em que vi as horas no
celular.
O
fato é que o ser humano precisa, desde os primórdios de sua existência,
acreditar no criador incriado. Acreditar que a vida não acaba aqui, acreditar
que exista uma razão além da proliferação da espécie para respirarmos, nos alimentarmos.
Se
você não acredita, espera só que eu vou puxar seu pé à noite... rs

