Noite
passada, meu filho teve um chilique, colocou uns carrinhos que acabáramos de
comprar na mesa do Mcdonalds, lugar bem saudável pra levar crianças, e ele
achou que a rodinha do carrinho não virava. Não tem coisa mais terrível para o
meu filho que tem pouco mais de 2 anos e meio, do que um carrinho em que uma ou
todas as rodinhas não rotacionam no seu eixo. Quase resolvi a crise de forma
mais severa, mas a consciência falou mais alta e resolvi da forma mais didática
que eu encontrei. Levei para o colo da mãe!
Esse
episódio me remeteu a infância, meus carrinhos eram muito inferiores aos que
existem hoje, principalmente porque brinquedos da Estrela, que naquela época
eram brasileiros e da Átima (que era Ótima), nem passavam lá em casa. Os meus
eram brinquedos de um plástico de péssima qualidade, as rodinhas ficavam presas
por encaixes, daqueles que pareciam um gomo de mexerica, e rodavam plástico com
plástico ou às vezes tinham um eixo metálico.
Lembro-me
da pilha de carros no meu quarto, todos sem rodas, não suportava que meus
carrinhos puxassem pra algum lado, quando os empurrava, se desviassem para um
dos lados eu desmontava as rodas e tentava alinhá-las, mas pela qualidade das
coisas, sempre acontecia o mesmo, ou o plástico quebrava, ou a haste metálica
laceava o cubo plástico da roda e ficava tudo soltando, enfim, eu perdia as
rodas e junto com elas o interesse em brincar com os veículos.
Estava
escrevendo este texto, pouco antes de fazer uma viagem de férias, numa sexta
feira à tarde e tive que parar de escrever. Recebi uma notícia triste.
Neste
último ano, literalmente no último ano, visto que faz doze meses e uns dias que
comecei minha terapia, passei a estudar uma matéria que muito me interessou, eu mesmo, mas uma coisa que não sei se
acontece com todo mundo, voltou a acontecer: Aprendo melhor quando ensino.
Na
psicanálise, passei a ser orientado para onde olhar, como olhar, de que forma
entender sentimentos e isso acontecia num consultório, num divã, mas também
acontecia pouco antes e pouco depois destas consultas na recepção do
consultório. Conheci uma pessoa que tinha muito a perguntar, inicialmente sobre
minhas opiniões, mas depois passou a falar sobre ela. Pude exercitar muito do
que aprendia, vendo as colocações de uma moça que pra mim mais parecia uma criança,
com problemas de criança, mas justamente problemas que costumamos não resolver
quando viramos adultos. De muitas formas, sei que contribuí para seu
amadurecimento, seu autoconhecimento e de forma bastante intensa, no seu bom
humor, porque rir sempre é o melhor negócio e fazer piadas sobre problemas é
uma das minhas virtudes. Para mim, os problemas são sempre menores do que as
pessoas!
Mas
o que aconteceu na última seção foi surreal, a Bárbara entrou na sala, pedindo
à sua mãe (minha psicóloga), trocados para a condução, chorava de preocupação
com a cirurgia que iria sofrer, eu brinquei dizendo que era bobagem, que ela
era forte e me antecipei encontrando moedas na minha bolsa. Mal sabia que por
ironia do destino, o que eu estava fazendo era dar-lhe as moedas para o barqueiro! Era a ultima vez que nos veríamos, então
agora, desejo do fundo do coração que o barqueiro a tenha levando com segurança
pra outra margem.
Ter
este sentimento é o máximo que alguém pode fazer. Vou lembrar a última coisa
que ela me disse sobre a vida que esperava. “Você sabe quando você sente que
encontrou a tampa da sua panela”. Tenho certeza que ela estava feliz, espero
que esse rapaz venha a saber, disso!
Voltando
para as rodas, se elas correm em paralelo perfeitamente, somente suas sombras
se tocarão.
Fazer
algo bem feito é mais uma questão de princípios do que de educação, não sei ao
certo se algo já nasce lá, ou bem no início de tudo se estabelece, nos
exemplos, no ambiente, coisas que nos fazem olhar em uma direção, mas para
coisas que sem os olhos nunca enxergaríamos.
Estes
olhos, são figura de linguagem é claro, é tudo o que nos faz trazer o mundo de
fora para dentro e depois de manipulá-lo, devolve-lo com a nossa marca.
Meu
Filho faz isso na mais tenra idade, mostra que vai fazer bem feito sempre e com
diferenças e similaridades a mim.
Eu
precisava que as rodas se mantivessem alinhadas, Ele precisa que elas girem. Um
não querendo perder o controle e o outro querendo ir mais além. Acho que é uma
ótima mistura!
E as borboletas do que fui
Pousam demais
Por entre as flores
Do asfalto em que tu vais...
Pousam demais
Por entre as flores
Do asfalto em que tu vais...
E as Paralelas
Dos pneus n'água das ruas
São duas, estradas nuas
Em que foges do que é teu
Dos pneus n'água das ruas
São duas, estradas nuas
Em que foges do que é teu

Os problemas são sempre menores do que as pessoas!
ResponderExcluirFazer algo bem feito é mais uma questão de princípios do que de educação