terça-feira, 18 de outubro de 2011

Rodas


Noite passada, meu filho teve um chilique, colocou uns carrinhos que acabáramos de comprar na mesa do Mcdonalds, lugar bem saudável pra levar crianças, e ele achou que a rodinha do carrinho não virava. Não tem coisa mais terrível para o meu filho que tem pouco mais de 2 anos e meio, do que um carrinho em que uma ou todas as rodinhas não rotacionam no seu eixo. Quase resolvi a crise de forma mais severa, mas a consciência falou mais alta e resolvi da forma mais didática que eu encontrei. Levei para o colo da mãe!
Esse episódio me remeteu a infância, meus carrinhos eram muito inferiores aos que existem hoje, principalmente porque brinquedos da Estrela, que naquela época eram brasileiros e da Átima (que era Ótima), nem passavam lá em casa. Os meus eram brinquedos de um plástico de péssima qualidade, as rodinhas ficavam presas por encaixes, daqueles que pareciam um gomo de mexerica, e rodavam plástico com plástico ou às vezes tinham um eixo metálico.
Lembro-me da pilha de carros no meu quarto, todos sem rodas, não suportava que meus carrinhos puxassem pra algum lado, quando os empurrava, se desviassem para um dos lados eu desmontava as rodas e tentava alinhá-las, mas pela qualidade das coisas, sempre acontecia o mesmo, ou o plástico quebrava, ou a haste metálica laceava o cubo plástico da roda e ficava tudo soltando, enfim, eu perdia as rodas e junto com elas o interesse em brincar com os veículos.
Estava escrevendo este texto, pouco antes de fazer uma viagem de férias, numa sexta feira à tarde e tive que parar de escrever. Recebi uma notícia triste.
Neste último ano, literalmente no último ano, visto que faz doze meses e uns dias que comecei minha terapia, passei a estudar uma matéria que muito me interessou, eu mesmo, mas uma coisa que não sei se acontece com todo mundo, voltou a acontecer: Aprendo melhor quando ensino.
Na psicanálise, passei a ser orientado para onde olhar, como olhar, de que forma entender sentimentos e isso acontecia num consultório, num divã, mas também acontecia pouco antes e pouco depois destas consultas na recepção do consultório. Conheci uma pessoa que tinha muito a perguntar, inicialmente sobre minhas opiniões, mas depois passou a falar sobre ela. Pude exercitar muito do que aprendia, vendo as colocações de uma moça que pra mim mais parecia uma criança, com problemas de criança, mas justamente problemas que costumamos não resolver quando viramos adultos. De muitas formas, sei que contribuí para seu amadurecimento, seu autoconhecimento e de forma bastante intensa, no seu bom humor, porque rir sempre é o melhor negócio e fazer piadas sobre problemas é uma das minhas virtudes. Para mim, os problemas são sempre menores do que as pessoas!
Mas o que aconteceu na última seção foi surreal, a Bárbara entrou na sala, pedindo à sua mãe (minha psicóloga), trocados para a condução, chorava de preocupação com a cirurgia que iria sofrer, eu brinquei dizendo que era bobagem, que ela era forte e me antecipei encontrando moedas na minha bolsa. Mal sabia que por ironia do destino, o que eu estava fazendo era dar-lhe as moedas para o barqueiro! Era a ultima vez que nos veríamos, então agora, desejo do fundo do coração que o barqueiro a tenha levando com segurança pra outra margem.
Ter este sentimento é o máximo que alguém pode fazer. Vou lembrar a última coisa que ela me disse sobre a vida que esperava. “Você sabe quando você sente que encontrou a tampa da sua panela”. Tenho certeza que ela estava feliz, espero que esse rapaz venha a saber, disso!
Voltando para as rodas, se elas correm em paralelo perfeitamente, somente suas sombras se tocarão.
Fazer algo bem feito é mais uma questão de princípios do que de educação, não sei ao certo se algo já nasce lá, ou bem no início de tudo se estabelece, nos exemplos, no ambiente, coisas que nos fazem olhar em uma direção, mas para coisas que sem os olhos nunca enxergaríamos.
Estes olhos, são figura de linguagem é claro, é tudo o que nos faz trazer o mundo de fora para dentro e depois de manipulá-lo, devolve-lo com a nossa marca. 
Meu Filho faz isso na mais tenra idade, mostra que vai fazer bem feito sempre e com diferenças e similaridades a mim.
Eu precisava que as rodas se mantivessem alinhadas, Ele precisa que elas girem. Um não querendo perder o controle e o outro querendo ir mais além. Acho que é uma ótima mistura!
E as borboletas do que fui
Pousam demais
Por entre as flores
Do asfalto em que tu vais...
E as Paralelas
Dos pneus n'água das ruas
São duas, estradas nuas
Em que foges do que é teu

Um comentário:

  1. Os problemas são sempre menores do que as pessoas!

    Fazer algo bem feito é mais uma questão de princípios do que de educação

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