terça-feira, 4 de outubro de 2011

Tic Tac


Estou há alguns dias com este som que meu relógio da cozinha, que é a pilha, faz quando o ponteiro dos segundos muda. Lembrei-me do velho cuco, na casa do meu tio Jorge Schmidt, precursor de nossa família Iuras, no ramo de ventiladores industriais.
As lembranças são de uma criança que ficava esperando o cuco sair, me encantava com o mecanismo, o pêndulo, os contrapesos e é claro o ”tic tac”.
A sala onde ficava o carrilhão era requintada, levemente escura, como todas as peças da mobília, finamente escolhidas pela minha tia Ana. Sendo um dos pontos centrais, havia uma TV, uma das primeiras com imagens coloridas. Assisti ao Emerson ser campeão lá em 72, fantásticas imagens coloridas, minha paixão por carros começou aí também, depois veio o Passat deste mesmo tio, máquina possante e a mais veloz do país na época, superando o poderoso Opala SS, coisas de alemães, mas voltando ao tempo que é o centro do meu discurso, tic tac, tic tac!
Dai-me paciência, esperar o cuco parecia um enorme desperdício de tempo, mas para um garoto introvertido como eu era a pura perdição! (RPM –olhar 43).
O timbre de voz desse meu tio era grave, e bota grave nisso, tremia tudo quando ele falava e tinha uma sagacidade e uma agudez fora do comum. Eu morria de medo que ele falasse comigo, sempre me escondia perto do meu Pai, nunca conseguia responder o que ele me perguntava. Sempre com um humor ácido, do tipo, mas você não sabe isso? Sempre sem rir no final da frase o que me deixava com mais medo!
Só escrevendo agora eu entendo minha retração em falar inglês, mesmo estudado muitas vezes e em muitos métodos, continuo tendo dificuldades quando alguém me pergunta algo diretamente. Estou rindo por dentro lembrando-me da última vez nos EEUU, quando fiquei sozinho na van que iria nos levar a Atlanta e o motorista que era uma figura e mais parecia um texano saído dos desenhos animados, ele virou pra mim e me perguntou algo num sotaque  carregado. Ri até exageradamente, falando comigo mesmo, eu sabia que ele iria puxar conversa, e pedi pra que ele repetisse bem de vagar, ele repetiu e eu entendi, era um simples: - É a primeira vez que você vem ao Alabama?
Mas eu ficava horas na sala olhando o cuco e um dos motivos, como disse aí a pouco era que quanto mais longe do meu Tio, menor a chance de ele ralhar comigo, então o tempo perdido era um tempo de sossego, eita moleque medroso sô!
Com o tempo passando e aquele velho cuco ficando pra traz, tive relações interessantíssimas com o tempo. Uma vez eternizei uma marca que tinha no chão do banheiro na casa do Parque São Lucas, era uma espécie de pegadas minúsculas e me senti Gulliver em Lilliput. Nunca me esquecerei daquela pegada e foi só um “eternize” que eu falei em voz alta, eu tinha uns 11 então faz muito tempo.

Quando tive contatos com a teoria da relatividade do meu outro tio (rs), comecei a imaginar e usar meus vastos conhecimentos em cima dos bem vivido 13 anos de idade e desenvolvi uma teoria de que o tempo era uma fita plana e tudo acontecia o tempo todo, num breve momento poderíamos nos conectar com o nosso eu de outros momentos e saber sobre o futuro ou reviver o passado. Tinha até uma representação gráfica que eu desenhei, com inúmeros eus, um no começo e outro no final, mas com todos aqueles outros se tocando pelas mãos, pensava até em uma unidade de tempo mínima que permitiria os eus serem indivíduos independentes e não um borrão. Acho que ainda acredito nisso, mesmo porque, um monte de cientistas começou a achar coisas parecidas. Estranho não é?
Nunca aconteceu com você, aquele absurdo pensamento de:
- Espero que passe logo e chegue o dia daquela festa ou viagem?
Comigo acontecia, mas sempre as coisas passavam rápido demais e o que tenho mais medo é de pensar: como vai acabar a minha vida, velhinho na cama revendo a vida...
Epa! Para com isso, nunca mais vou pensar no que vai acontecer depois, chega muito rápido, tá doido!
tic tac tic tac tic tac....
A vida é uma formiguinha que fica andando dentro da gente, até o dia que ela para de andar, sempre pensei que era um perigo se ela ficasse de ponta cabeça ou eu correndo muito e ela caísse. 
tic tac tic tac tic tac....
Num esquenta essa é a melhor conclusão tudo a ver e nada a ver que eu poderia chegar.
Nessa musica aí do link eu caprichei..dããããã

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