Estou
há alguns dias com este som que meu relógio da cozinha, que é a pilha, faz
quando o ponteiro dos segundos muda. Lembrei-me do velho cuco, na casa do meu
tio Jorge Schmidt, precursor de nossa família Iuras, no ramo de ventiladores
industriais.
As
lembranças são de uma criança que ficava esperando o cuco sair, me encantava
com o mecanismo, o pêndulo, os contrapesos e é claro o ”tic tac”.
A
sala onde ficava o carrilhão era requintada, levemente escura, como todas as
peças da mobília, finamente escolhidas pela minha tia Ana. Sendo um dos pontos
centrais, havia uma TV, uma das primeiras com imagens coloridas. Assisti ao
Emerson ser campeão lá em 72, fantásticas imagens coloridas, minha paixão por
carros começou aí também, depois veio o Passat deste mesmo tio, máquina
possante e a mais veloz do país na época, superando o poderoso Opala SS, coisas
de alemães, mas voltando ao tempo que é o centro do meu discurso, tic tac, tic
tac!
Dai-me
paciência, esperar o cuco parecia um enorme desperdício de tempo, mas para um
garoto introvertido como eu era a
pura perdição! (RPM –olhar 43).
O
timbre de voz desse meu tio era grave, e bota grave nisso, tremia tudo quando
ele falava e tinha uma sagacidade e uma agudez fora do comum. Eu morria de medo
que ele falasse comigo, sempre me escondia perto do meu Pai, nunca conseguia
responder o que ele me perguntava. Sempre com um humor ácido, do tipo, mas você não sabe isso? Sempre sem rir
no final da frase o que me deixava com mais medo!
Só
escrevendo agora eu entendo minha retração em falar inglês, mesmo estudado
muitas vezes e em muitos métodos, continuo tendo dificuldades quando alguém me
pergunta algo diretamente. Estou rindo por dentro lembrando-me da última vez
nos EEUU, quando fiquei sozinho na van que iria nos levar a Atlanta e o
motorista que era uma figura e mais parecia um texano saído dos desenhos animados,
ele virou pra mim e me perguntou algo num sotaque carregado. Ri até exageradamente, falando
comigo mesmo, eu sabia que ele iria puxar
conversa, e pedi pra que ele repetisse bem de vagar, ele repetiu e eu
entendi, era um simples: - É a primeira vez que você vem ao Alabama?
Mas
eu ficava horas na sala olhando o cuco e um dos motivos, como disse aí a pouco
era que quanto mais longe do meu Tio, menor a chance de ele ralhar comigo,
então o tempo perdido era um tempo de sossego, eita moleque medroso sô!
Com
o tempo passando e aquele velho cuco ficando pra traz, tive relações
interessantíssimas com o tempo. Uma vez eternizei uma marca que tinha no chão
do banheiro na casa do Parque São Lucas, era uma espécie de pegadas minúsculas
e me senti Gulliver em Lilliput. Nunca me esquecerei daquela pegada e foi só um
“eternize” que eu falei em voz alta, eu tinha uns 11 então faz muito tempo.
Quando
tive contatos com a teoria da relatividade do meu outro tio (rs), comecei a
imaginar e usar meus vastos conhecimentos em cima dos bem vivido 13 anos de
idade e desenvolvi uma teoria de que o tempo era uma fita plana e tudo
acontecia o tempo todo, num breve momento poderíamos nos conectar com o nosso
eu de outros momentos e saber sobre o futuro ou reviver o passado. Tinha até
uma representação gráfica que eu desenhei, com inúmeros eus, um no começo e outro no final, mas com todos aqueles outros se
tocando pelas mãos, pensava até em uma unidade de tempo mínima que permitiria
os eus serem indivíduos independentes
e não um borrão. Acho que ainda acredito nisso, mesmo porque, um monte de
cientistas começou a achar coisas parecidas. Estranho não é?
Nunca
aconteceu com você, aquele absurdo pensamento de:
-
Espero que passe logo e chegue o dia
daquela festa ou viagem?
Comigo
acontecia, mas sempre as coisas passavam rápido demais e o que tenho mais medo
é de pensar: como vai acabar a minha
vida, velhinho na cama revendo a vida...
Epa!
Para com isso, nunca mais vou pensar no que vai acontecer depois, chega muito
rápido, tá doido!
tic tac tic tac tic tac....
tic tac tic tac tic tac....
Num esquenta essa é a melhor conclusão tudo a ver e nada a ver que eu poderia chegar.
Nessa musica aí do link eu caprichei..dããããã

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