segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ilha do Medo



Como sempre, mais brindes oferecidos por pessoas excepcionais em momentos tão aleatórios que acabam orquestradamente, sendo música de câmara para meus ouvidos, poeticamente falando é claro...

Assisti neste fim de semana, A Ilha do Medo.
Direção: Martin Scorsese.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson.

Tem uma porrada de blogs falando do filme, é muito bom mesmo, vale a pena ver, pra quem gosta de suspense e trama, mas não quero falar especificamente da história, só vou comentar a ultima frase do filme, mas não vou estragar a história não, fiquem sossegados.

“Este lugar me faz pensar se é melhor viver como um monstro ou morrer como um homem bom.”
O personagem da trama vive numa constante nuvem de sonhos, alucinações, num mar de culpa, mas só de uma culpa, a de ter deixado passar a oportunidade de ajudar alguém que ele amava, mas a vida é assim, um monte de encontros, nada aleatórios, no meu ponto de vista, e aí a gente sempre decide o que é relevante, quem é importante, de quem vamos ficar mais próximos, quem vamos afastar e até mesmo fazer de conta que não passaram pela gente.

Voltando a trama, o que parecia um problema passageiro, de forma dramática e trágica, se transforma no maior de todos os acontecimentos possíveis para um ser humano. O que poderia ser amenizado pelas opiniões dos que estavam fora da situação, nunca poderia ser esquecido pelo protagonista, o julgamento próprio, vindo do que ele sabia de mais íntimo, o condenou e ele decidiu, na ilha do medo, que não poderia viver como um monstro.

Tem uma passagem que poucos vão entender, mas que alguns vão se reconhecer, numa frase de quem tem consciência da verdadeira razão dos seres humanos estarem sobre a terra, que é mais ou menos assim:

“Toda ocasião que perderdes de serdes útil será uma infidelidade e todo socorro recusado será um perjúrio”

A gente tem que ser útil e tem que prestar socorro, depois sempre é tarde. Eu sempre insisto e acabo sempre sendo chato por isso, às vezes bobo por isso, às vezes impedido de ser assim por outra máxima, “cada um com seus problemas.”

Assisti então ao vídeo da galinha pintadinha com meu filho e tinha o clipe do “Alecrim Dourado” ele dormiu e eu fiquei assistindo mais umas 157 vezes, de mais isso:

“Alecrim, Alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado...
Foi meu amor que me disse assim, que a flor do campo é o Alecrim”

Meu Alecrim Dourado, se eu não mais vivesse, já teria sentido cumprido o motivo da minha vinda, ver-te assim, crescendo no campo, reluzindo seus raios louros sobre tudo que passa, repousarei meus olhos em sua luz, no seu sol, na sua vida!

Sempre gostei da cor amarela no cabelo..
O que uma coisa tem a ver com outra?
Nada!
Tudo!

Assistam e deixem seus corações de criança voltarem a bater como o meu voltou







terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Bolhas de vida!


Quando eu tinha uns 11, vinha pra Jundiaí passar férias, meu primo Vanderley, passava as férias com a mãe e a diversão tava feita se a gente estivesse juntos. Éramos os irmãos que não tínhamos um pro outro.

Aí a cadela da minha tia pariu (rs.) e foi um perereco. Cinco filhotinhos se não me falha a memória, e minha tia nos incumbiu de dar fim nos bichinhos
-deixem bem longe perto de alguma casa!

Fomos eu, meu primo e uma molecada da rua, doidos por farra. Atravessamos a estrada velha de campinas, indo da Hortolânda em direção a onde é agora a prefeitura nova e todos animados com a aventura. Enveredamos pela região que margina o rio Jundiaí. Encontramos uma nascente com água e os garotos batutas, resolveram brincar com os filhotinhos. Brincadeira bem saudável, afundavam os bichinhos e depois tiravam da água, coisa pouca e as palavras de ordem eram, vamos afogar, aí nem precisamos achar uma casa pra eles
.
Aí vem uma pausa na história, eu era o garoto da cidade, ingênuo, sem boca pra nada, nem palavrão falava, tímido, medroso até, vivendo no meu mundo de faz de conta que nunca se me encaixava na realidade da vida, sempre super-herói, sempre imbatível. Era na verdade alguém desinteressante pros garotos da minha idade
.
Bom, voltando aos auaus, aquilo começou a me gelar a barriga e eu me sentia sem ar, cada vez que um pobrezinho era mergulhado. Pro meu assombro, meu primo gostou da brincadeira e tinha um cachorrinho na mão, ele afundava na água e esperava borbulhar até parar, aí tirava da água, pra ele tomar fôlego e de novo pra água. Aquela aflição, agonia, me tomou. Sem saber como agir, era o único que não ria da situação e como todo bom super-herói de mentira, estava procurando uma cabine telefônica pra me trocar, esperando uma palavra mágica pra me transformar, sei lá o que eu esperei tanto, mas aí aconteceu!

Parei com aquilo, comecei falando firme com meu primo, que de imediato me ignorou, mas não parei por aí, subi a voz como nunca fazia e aí sim, me ouviram. Não lembro minhas palavras, mas assim como voltaria a acontecer muitas vezes depois na minha vida, elas foram contundentes e atingiram seu justo objetivo. Pararam imediatamente com aquela coisa sem propósito e acabamos por deixar os filhotinhos próximos a uma casa.

Lembrei mesmo daquele outro super-herói trash da minha tenra infância, o Incrível Hulk, era cinza, mas era um cinza claro, diferente do capitão América, que tinha cinzas mais radiantes, ou do homem de ferro, que tinha um cinza escuro..rs. TV Preto e Branco era assim, até o Garibaldo era cinza.

Lembro que ele ficava nervoso e se transformava, todos sabem da história, ele depois de destruir muitas coisas acabava ajudando alguém, era perseguido pelo exercito ou polícia e tinha que se refugiar no topo de alguma montanha. Lembro as palavras da criatura sozinha e isolada “ Ninguém ama o Hulk, todos querem matar o Hulk”

Eu ficava triste, sempre tive vontade de ser forte pra burro, mas não era, era magro e fraquinho, não botava medo em ninguém, aí me identificava com o Hulk, na solidão.

Anos mais tarde, com a série da TV, conheci uma nova história para o ser verde incompreendido, o Doutro Banner, depois de perder a mulher num acidente, pesquisa sobre pessoas que tem uma força descomunal quando estão em situações de perigo e conseguem até virar um carro na mão, para salvar um filho por exemplo. O Dr. Banner, se sentiu completamente impotente com a morte da esposa e na pesquisa por despertar esta força nele próprio, que quando precisou não teve, num acidente de exageradas proporções com raios Gama, passa a ser o Hulk.

Que ironia esta história, ele já tinha passado do ponto, não traria mais a esposa de volta e quando ele nada mais podia fazer, agora convivia com este desajuste de ser excessivamente forte, quando em situações adversas, mas já era! não dava mais pra trazer o que se foi.

Esta síndrome do Hulk, se posso chamar assim, inventei agora acho, é um fenômeno que muitas pessoas vivem, se irritam em demasiado com coisas banais. A origem está numa impotência, em alguma situação no passado, mas estas pessoas não percebem que situações não se repetem se nós não as trouxermos conosco. Não abandonam nunca aquela sensação do passado, de impotência, aí a potência vem, onde é preciso jeito!

Acho, que mesmo eu tendo sido o Incrível Hulk, na minha infância, consegui de alguma forma, usar a potência nas situações mais difíceis da minha vida. Ainda não consegui, parar totalmente de usar contra mim mesmo, este critério furioso. Às vezes me imagino, pesado e sisudo, cinza, porque não, mas isso ainda vai me deixar.


sonho de Ícaro









quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

With or Without You U2– Uma Música, Uma História



É mais ou menos assim:

O Bono Vox espera pela moça, sem tê-la, mas ela não tem pressa ela dá algo, mas ele quer muito mais,
Então o que ele recebe o machuca, e o que não recebe machuca mais...
E Ele espera sem ela...

And I wait without you

Mas olha que mulher cruel, o coitadinho do Bono, um cara ativista, inteligente, escreve cada coisa, foi indicado pra prêmio Nobel da Paz, sabe a cor preferida dela, o docinho que ela ama, escreve cartas de amor, se abre, se entrega de corpo e alma e a insensível, se entrega ao mundo, mas a ele não...

And you give yourself away

E aí, ele sente, que não pode mais viver a partir do momento que a conheceu...

I can't live
With or without you

Mas é assim, o Bono deve ter lido o meu texto LUA (rs), ele continua buscando e acreditando em algo, mesmo vivendo no limbo, a margem da existência, sem respirar, só em pensar no que nunca teve e nunca terá, a cada inspirada e expirada, exclama:
-nem acredito que ainda estou vivo sem tê-la

Mas Ela não sente, ela só o possui, sem que tenha algo a ganhar ou perder com ele...
She got me with
Nothing to win and
Nothing left to lose

E Ele ainda acredita parecendo lutar contar a dor..

Yeah, we'll shine like
stars in the summer night
We'll shine like
stars in the winter light
One heart, one hope, one love

 "Vamos brilhar como
estrelas na noite de verão
vamos brilhar como
estrelas na luz do inverno
um coração, uma esperança, um amor"

Agora Falando totalmente serio, a moça não é responsável, na verdade a única coisa que ela faz de errado é respirar. O Bono que se meteu na maior das aventuras humanas, amor incondicional.

Tem que se ter um grande espírito pra isto, as pessoas menos sensíveis ou em outro estágio na evolução, quando cessada a motivação, em algum tempo, abandonam a luta e partem pra outra, mas os grandes apaixonados, estes nutrem a busca por tudo que é inalcançável, porque esta é uma forma de vida, uma filosofia.

Os grandes artistas, inventores, descobridores, desbravadores, estes todos que fizeram a humanidade como é, boa ou não, todos eles foram grandes apaixonados e caçadores incessantes da LUA.

Os caçadores da Arca Perdida, do Santo Graal, da Palavra Perdida, estes encheram o mundo de histórias e aventuras, os Marco Pólo, Platão, Da Vinchi. Einstein, Newton, Edson, Moliere, Cazuza, Chico, Milton, Lincon, Mozart, Villa Lobos, e finitos mais…

O Bono Vox no grito quando finaliza o refrão, coloca a alma pra fora, por isso ele é o que é, porque tem paixão...




não vou recomendar a tradução porque ela não está a altura da composição, observem no ponto 3:05 min do vídeo, a alma em expansão.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Poltergeist!


Minhas memórias não são lineares, às vezes me vem em uma ordem que não me faz sentido, esta, aconteceu faz uns dez anos...
Noite de sexta pra sábado, morávamos eu e a Cristiane em um apartamento no Conjunto São Francisco, na Luiz Latorre. Fui deitar mais tarde, estava assistindo alguma coisa que não me lembro, quando me deitei, quase como sempre, a tempestade de ideias e o resumo do dia começaram a pipocar, sem controle, pronunciando que o sono demoraria muito a vir.
Coisa absurda, em poucos minutos, escutei a escada de alumínio que ficava na lavanderia cair.
Pensei, deve ter ficado encostada em algo e o vento a derrubou. Mas que coisa, imediatamente ouvi de novo a escada de alumínio cair. Confuso, perguntei se a Cris teria ouvido e ela acordou, nem me dando muita atenção e disse, a escada deve ter caído e eu meio assustado, mas sem perder o meu humor, muitas vezes negro, perguntei em retórica, quantas vezes a escada pode cair? 

Mas antes de achar graça de mim mesmo, outros sons romperam a acontecer, primeiro, as portas do guarda-roupa do quarto de trocar começaram a dar sinais de vida, como se alguém o torcesse, ou tentasse abrir suas portas, em seguida um som vindo do banheiro como se fosse da tampa do vazo, neste momento minha cabeça sem entender, começou a conceber o impossível, corri e tranquei a porta do quarto com a chave. Imaginei primeiro um ladrão, mas esquisito, 15ª andar, como alguém teria entrado logo em seguida ao me deitar, não ouvi barulho na porta de entrada, depois pensei ser um rato saído do esgoto, mas como, o barulho em cômodos diferentes, muito rápido e muito grande pra ser um rato, a esta altura o quarto do computador já tinha sido atacado e coisas voaram pelo chão e muitas. Já estava concebendo um poltergeist. Abaixei-me para olhar por baixo da porta e nada de luzes, nem uma lanterna, como poderia ser um ladrão, olhei pela janela do banheiro e nada de vultos ou luzes, a Cris, não se arriscou a dizer nada e eu comecei a pensar se meu Pai estivesse aqui ele faria algo, sempre destemido, o que será que ele faria? Mas sem chance, meu Pai não estava, eu era o homem da casa e os barulhos não paravam, olhei para o mancebo que tínhamos no quarto e removi a parte superior dele, parecia um taco, um galho de árvore, sei lá, mas me armei e no máximo do meu medo, coloque a mão na chave da porta e decidi usar o elemento surpresa, abri com tudo a porta, batendo a mão no interruptor do corredor e gritando como um alucinado “QUEM ESTÁ AÍ”.  Acho que acordei uns dois andares com minha exclamação. Corri pra cima do seja lá o que fosse...

Olhos grandes, muito grandes me fitavam, brilhando na penumbra, pra minha surpresa assustados como os meus... Uma bela e grandiosa coruja me olhava do braço da poltrona do quarto do computador.

A coitadinha entrou pela basculante da cozinha e deu de cara com a escada de alumínio, bateu contra ela e desgovernada derrubou tudo que estava sobre a geladeira e bateu de volta na escada tentando sair por onde entrara desgovernada de novo, voou pelo quarto de vestir e chocou-se contra o guarda-roupa, em seguida voando em diagonal bateu contra o Boxe do banheiro, caiu sobre a tampa do vazo, tentando se recuperar voou de novo em diagonal e achou o quarto do computador, onde derrubou simplesmente tudo que estava sobre o armário.
Um Homem acuado é muito perigoso, vence medos, tira forças de lá de dentro. Hoje perdi o medo do escuro, não penso mais que meu Pai possa me proteger, ainda tenho paúra de baratas, mas com o tempo também isto se vai.

Quando era muito pequeno, sonhava com coisas sempre grandiosas, cresci e acho que muitos destes sonhos aconteceram. O mais difícil foi desvestir a armadura do Homem de Ferro. Um sonho de infância tê-la e não ser atingido por nada. Ela me acompanhou até bem pouco tempo atrás, na verdade ainda a visto, às vezes, mas a proteção que ela me deu, me tornou pesado, as lágrimas que nunca brotaram pra fora, a enferrujaram por dentro, lento e pesado, não conseguia mais carregá-la comigo. 

Sabe, sem ela fui alvejado, era de se esperar, senti primeiro a dor lancinante, a minha visão ficou turva, os joelhos dobraram e senti as pedras sobre os quais repousei no primeiro momento, os sentidos se perderam mais um pouco e meu rosto foi contra o chão, minhas mãos cheias de terra e areia, marcadas de pedriscos, eram minha visão naquele momento. Nada além das minhas mãos, mas agora, o gosto de sangue na boca passou, estou recobrando os sentidos, lembrando o que aprendi fazendo escalada, primeiro segurando com as pontas dos dedos, me equilibrando, achando ponto de apoio para uma perna, depois para a perna que fará força e o primeiro passo, só pensando nele, nada mais importa senão o primeiro, e depois nada mais importa além do próximo.

Ainda dói ser alvejado, o ferimento está lá, mas estar livre desta armadura me fez sentir leve, vale tanto a pena, que vou ficar sem por enquanto.

Lembrei-me desta música, a Cris sempre gostou.



terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Desconhecendo a Média! (Medíocre ignorância se preferirem)

Esta crônica, foi escrita para uma pessoa que não conheço e foi a pedido da minha psicóloga, para ser entendida, requer uma pequena noção de estatística, mas nada de muito complexo, somente pra entendermos o mundo onde estamos mergulhados.

A Curva Normal, ou também conhecida Curva de Gauss é um estudo sobre valores estatísticos, que vem do século 17 e foi usada inicialmente para se prever jogos de azar e aprimorada desde então por cientistas de diversas áreas e serve pra prever eventos com uma segurança incrível. Nela, conseguimos prever a quantidade de eventos dentro de um universo de possibilidades, que irá acontecer se repetirmos a experiência e quanto mais repetimos, mais precisa será esta distribuição. 


Em resumo, se perguntarmos para 100 pessoas em que horas elas tomam o café da manhã, através das previsões de uma curva normal, saberemos que 95 delas estarão dentro de 2 desvios padrão, previsivelmente na mesma hora. Se quisermos ter uma precisão muito maior, saberemos que dentro de um desvio padrão, teremos quase 70 destas pessoas. E isto vale pra qualquer evento.


Pra que toda esta baboseira?
Bom, eu como muitas pessoas que  conheço, sentem-se invariavelmente, em muitas situações, sós. Esta solidão é oriunda de um fator estatístico.

Vejamos: Se conhecemos bem sobre um assunto, estamos entre míseros 25%, que conhecem bem, se conhecemos muito bem estamos entre ínfimos 2% dos seres humanos que conhecem muito sobre algo, então, é estatístico, o assunto que nos preenche normalmente é desconhecido pela maioria esmagadora das pessoas que cruzamos na estrada.

E quando falamos de alguém nos conhecer muito bem, este numero cai para absurdos 0,13%
Então meus caros, o normal é ignorar algo, a mediocridade e a ignorância são onde se encontram a grande maioria das ações dos seres humanos, eu disse ações, não os seres humanos ok?

Estamos certos de nos sentirmos sós?  Vamos inverter esta retórica sem sentido. Somos nós os responsáveis pela solidão dos outros? Quantas e quantas infinitas vezes fomos nós dados estatísticos, os medíocres ignorantes?

Muitas né? Quantas?... infinitas?... exageradas vezes somos os ignorantes. Pensemos se um pouco de boa vontade não nos coloca na média e aí poderíamos nos sentir acompanhados, mesmo em nossa solidão, pois os 99,74% desta curva se sentem sós em algum grau e em algum momento. Então estamos somente acompanhados por todos!  Vamos olhar friamente estes números na próxima crise  depressiva ok? Esta análise não vale só para a solidão, vale para descrença no ser humano, além de curar mau olhado, frieira e desmistificar as loterias todas!
Prometo que a próxima postagem será mais feliz e animada.
Música pra confundir a cabeça e nos levar ao nirvana:



Este link aqui abaixo é pra quem quer conhecer mais sobre a curva normal, não recomendo se você não estiver entre os 0,13% retardados como eu!


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Lua


Recordações vamos sempre ter, mas lições, só se quisermos de verdade.

Estive em contato com uma natureza grandiosa nesta última semana e fui buscar lá atrás um sentimento que nunca esqueci e agora passo pra vocês.

Tinha eu por volta de cinco anos e estava passeando de carro com meu Pai, um Mercedes 51 preto, o verdadeiro calhambeque, íamos como sempre em silencio, por uma noite clara, mas não muito quente, me recordo de sentir o frio pelos ossos, e Ele de súbito encostou o carro.

Não consigo precisar o local, mas vou tentar, porque alguém pode até reconhecê-lo. Devia ser em algum lugar voltando de são Mateus, lembro de ter ido pela avenida industrial, Sapopemba, mas era na volta, já retornando por estes caminhos que ele parou. Era logo após uma curva a esquerda, no alto, tinha uma grande pedra. Meu pai desceu e começou a olhar em direção ao céu, eu desci também e o imitei, como sempre. Vi uma lua enorme, agora sei que era lua cheia, o céu estava estrelado, cintilante poderia eu dizer, mas a lua, a lua estava linda. Foi a primeira vez que eu via este astro com o tamanho que ele é. Ficamos alguns minutos ali e depois do mesmo modo que chegamos partimos.

Aquela noite iluminou minha alma, e assim como os poetas, me apaixonei pela lua, simbolicamente, algo que se pode admirar e nunca tocar, eu andava e olhava pra Lua e ela nunca ficava mais próxima, por mais que eu andasse em todas as direções.

Talvez por isso, aquele distintivo de xerife e o revolverzinho de plástico que vinham na maria-mole que eu perdi e não achei mais eram tão importantes pra mim,  meu mais querido brinquedo. Talvez, aquele carrinho de ferro, que minha tia Marlene, do tio Valter me deu, usado todo descascado, que eu pintava com esmalte e que um dia sumiu, atrás de algum móvel, ou esteja em algum buraco no quintal ainda, tenha sido meu melhor carrinho, talvez por isso que a tampinha do refrigerante Cuca, que desapareceu misteriosamente da minha coleção de tampinhas, era o maior artilheiro da história do meu campeonato de tampinhas (acho que ele se transferiu pra Itália sem me avisar).

Coisas a se alcançar! Se fosse só esse meu legado seria triste não é? Pois é, mas não foi, meu Pai me levou no pedalinho em Águas de Lindóia, fomos pescar na Billings. No terreno baldio da esquina, me ensinou que a Maria-pretinha era deliciosa, crescia no mato e era muito doce, inúmeras vezes voltei sozinho procurando no mato esta guloseima. Um dia foi comigo e com minha irmã num outro terreno baldio, lá no fim da Rua Pirapora nos mostrar aquela plantinha que fecha quando a gente encosta nela, e o que dizer de me ensinar a identificar morangos silvestres.

Tudo tão simples e tão palpável. A vida é assim, este emaranhado de sentimentos, que uma hora são inatingíveis e na maioria dos momentos estão ali, ao alcance da mão.

Posso confessar, sempre esperei o momento de repetir esta parada pra olhar a noite, com meu filho, muito tempo antes de ele nascer e espero muito poder fazer isso, acho que vou fazer só um pouquinho diferente, vou abraça-lo enquanto olho pra lua e apaixonado vou derramar lágrimas, como estou fazendo agora, porque a vida é assim, deliciosamente imprevisível e apaixonante. Tão perto e tão distante!



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Highway


Esta é sobre o motivo deste blog, é sobre a placa de retorno. Demorou pra eu escrever, porque talvez eu estivesse esperando ser isso uma mentira, mas hoje quando acordei pela manhã, percebi que não é...
A vida tem  uma grande estrada, na qual, dirigimos sozinhos em nossos carros. Cada qual na sua velocidade, indo cada qual pra um destino. Se mais rápido, mais emoção, mas acaba mais rápido, se mais lento, vemos mais coisas, mas também nos aborreceremos.
Quando nos encontramos é  nos postos de gasolina da vida, pra abastecermos e continuarmos a viagem.

Por que sempre sozinhos?  Já me perguntei. Uma família não está no mesmo carro, ou numa van. Não, como não? Por acaso um bebezinho dirige uma carro?
Não, ele está sendo rebocado.
O carro é uma figura que representa nosso corpo físico, entenderam? sozinhos dentro de nós mesmos.

E aí, o que sei, é que as vezes, alguém coloca o rosto pra dentro de nossa janela e nos beija o rosto. Alguém que está lendo poderia dizer, já sei, é algum coração entrando em contato com o nosso! Outros que me encontraram em outros postos de gasolina diriam, é uma referencia ao sexo! Ora bolas, claro que é o amor!
Então o que tem tudo isso de interessante e de lição e de complicado? Bom, eu sempre que estou na estrada, tenho muito tempo pra pensar e tenho lembranças do passado, que vem sempre regadas de saudades, algumas são só boas, mas outras trazem arrependimento, coisas que deixei  de fazer, ou momentos que deveria  ter aproveitado, pessoas que não conheci mais a fundo, situações mil.

Então eu começo a procurar um retorno, uma forma de voltar aquele momento, mas a vida é uma estrada sem placa de retorno! Não existe mais como voltar, porque esta estrada se chama tempo e o tempo perdido não volta. Entendem agora porque demorei tanto pra escrever uma coisa tão lógica? Não dá mais pra voltar e esta sensação de impotência é terrível.

Aí eu comecei a me entender e ver que já que eu não posso voltar, só tem uma coisa a fazer! Trilhar minha vida por caminhos que me façam lembrar com satisfação o que se passou, sem arrependimentos, que me façam ver que ninguém volta, não só eu, não sou tão importante pra ter uma lei assim só pra mim!

Nada volta, mas algumas situações são parecidas e aí eu pensei, vou tomar decisões diferentes desta vez, se apareceu de novo e eu fiz direito da outra vez é porque agora tenho outra lição a aprender, se deu errado, do mesmo jeito, fazer até aprender, ou fazer até se sentir satisfeito.
Mas no final de tudo, sempre sozinhos, no máximo em comboios, no máximo nos abastecendo juntos, no máximo sorrindo uns para os outros, no máximo por concessão divina, fazendo os corações beijarem-se.

Vou terminar assim “Na boca, em vez de um beijo, Um chiclete de menta e a sombra do sorriso que eu deixei. Numa das curvas da highway”
Sabia que um dia esta musica um dia diria pra que veio.


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Avatares



Olha de novo!

Meu filho me brinda, às vezes, com intermináveis seções repetidas dos mesmos filmes, e descobri que isso é uma benção.

Quem não assistiu que assista AVATAR. Dezenas de mensagens veladas e declaradas, o despertar, a consciência coletiva, a comunhão, a natureza e seu enorme poder, o amor.

O que eu vi de diferente então, talvez nada, mas talvez tudo.Somos paralíticos emocionais, cada um com sua deficiência e em algum lugar ou momento, nos transportamos para nossos avatares. O meu é aqui no trabalho. 

Sou mais alto, mais forte, mais rápido, sorrio mais, tenho menos medo, busco a passagem tribal de aprendiz a guerreiro.

Conecto-me ao meu dragão alado, e com o simples pensar faço manobras fantásticas, atinjo velocidades inconcebíveis.

Combato contra as grandes máquinas destruidoras e defendo o mais puro direito de trabalhar e vencer na vida, não importando a origem, credo ou raça.

Sou Justo, passo lições, transmito experiência, sou confiável sempre, sobreponho ao meu interesse o bem coletivo, arrisco meu avatar, como se não houvesse morte.

Mas aí acaba o expediente,  volto pra minha casca real, paralítico, fraco, egoísta, impotente.

Por que não somos fortes pra ir a uma escola e falar para crianças, tentar ao menos que algumas sejam orientadas pra fugir das drogas, pra viver como crianças e não como adultos paralíticos?

Por que não vamos aos parques e observamos quem precisa de um alento, de uma palavra de consolo em meio à multidão?

Por que não olhamos pra quem amamos e não interferimos, tomando sua dor de assalto, trombando e as desviando do caminho da paralisia?
Paralíticos ou Avatares?

Um dia ainda vamos nos transferir integralmente para os corpos da mente, sem culpas, sem o medo da felicidade, sem a covardia de não tentar.
Um dia vamos enfrentar a fila da montanha russa, sentir medo, frio na espinha, vontade de correr, mas vamos ficar e sentir a vida passar pelos nossos ossos e almas. Chegando lá em baixo vamos dizer que valeu cada gota de suor frio e cada grito, que sentir o risco é estar vivo, que se apaixonar dói mais faz sentir a vida, que tudo vale a pena, que só aprendemos pela dor, pra chegar ao amor e se esquivar dela as vezes é saudável, mas sempre é não viver.